Eis que termina um dia muito importante para o poeta Guilherme de Faria. Nas provas de doutoramento que decorreram na Faculdade de Letras da UP, fui aprovado com distinção por unanimidade e estou, naturalmente, muito feliz.
Já está on-line o site do poeta:
www.guilhermedefaria.com. E o blog:
www.guilhermedefaria.blogspot.com começa amanhã a funcionar normalmente.
Transcrevo aqui o texto de apresentação:
Gustavo Aimar
Quando me inscrevi num doutoramento em Literaturas e Culturas Românicas, estava consciente das dificuldades que à partida se colocariam, na medida em que me licenciei em Teologia e defendi em 2002, nesta mesma Faculdade, a dissertação de mestrado em Filosofia Medieval. Ainda assim, o meu objectivo prendia-se fundamentalmente com a narrativa da vida do poeta Guilherme de Faria e com uma leitura hermenêutica da sua poesia. Desse modo, estas páginas que aqui, hoje, se discutem, têm um contexto e um pretexto académico, mas nascem do desejo de escrever a biografia de um poeta e desocultar a sua obra, durante 80 anos praticamente esquecida.
Apesar da inscrição em doutoramento datar de Outubro de 2007, este trabalho começou em 2006. Durante estes seis anos, Guilherme de Faria tornou-se íntimo da minha vida, do meu quotidiano, da minha casa, da minha família, até dos meus amigos… No que diz respeito aos meus dias: nada parou, ou sequer abrandou, para que a vida e obra de Guilherme de Faria se desvelassem nesta dissertação de doutoramento; nada parou, ou sequer abrandou… o conteúdo destas páginas coexistiu com a minha actividade profissional, com uma série de projectos, com todo o património [material e imaterial] de que são feitas as nossas vidas. Ao folhear estas páginas, recordo o silêncio da minha biblioteca nessas horas nocturnas em que se conquista a intimidade de um poeta, recordo as viagens, uma certa solidão que não se explica, cada documento descoberto e manuseado… como se de tesouros se tratasse ou apenas de oportunidades de redenção; lembro os amigos que [directa e indirectamente] participaram neste projecto de, poeticamente, ressuscitar um poeta.
Numa carta que Luís Amaro me escreveu recentemente, lê-se que "raramente um Poeta foi alvo de tamanha dedicação amorável!" Talvez tenha sido esse o principal objectivo desta dissertação: "dedicação amorável". Mas no contexto da obtenção de um grau académico, num texto de apresentação, cabe-me dizer algumas palavras sobre o conteúdo deste trabalho.
Na primeira parte desta dissertação, procurei apresentar uma narrativa biográfica desse rapaz raro, que nasceu em 1907, em Guimarães, tão perto desse castelo que é, simbolicamente, o berço de Portugal. A sua infância coincide com o regicídio, com a proclamação da República e com o Sidonismo. De resto, o assassinato de Sidónio Pais, no final de 1918, e a partida de Guilherme de Faria para Lisboa, em 1919, determinam, simbolicamente, o fim da infância do poeta.
A sua família ocupa uma casa na rua da Horta Seca, entre o Chiado e o Bairro Alto. Por isso, Guilherme de Faria foi um poeta que, em Lisboa, nos anos 20, se situou sociologicamente, culturalmente, entre o Chiado e o Bairro Alto. No seu imaginário poético persistia uma separação dualista e intranquila entre o passado idílico, mitificado da sua infância, e um presente em que a cidade, com as suas luzes e miasmas, impunha uma realidade que o poeta recusava aceitar com a intensidade dramática de quem se rejeita a si próprio. E ainda assim, encontramos Guilherme nas encruzilhadas da cidade, nos cafés, entre poetas e amigos… um rapaz comunicativo, activo, criativo; o mesmo rapaz que no silêncio que se abate, crepuscular e outoniço, sobre as suas páginas íntimas, dialoga com a morte, como se a morte fosse a amante e as páginas fossem o tálamo, esse ataúde em que adormeceram tantos dos poetas que Guilherme amou.
E assim passaram os anos: as ilusões foram sempre mais efémeras do que as decepções, o reconhecimento da sua poesia foi sempre obscurecido pela inadaptação para a vida real, que era tão excessivamente real para um poeta tão poeta. A existência concreta constituía, à partida, um desafio conceptual, porque o seu problema nunca foi o que quis ser – Guilherme de Faria quis ser tanto, quis ser tudo… –, o seu problema foi fundamentalmente o que não quis ser, como se lê na sua «Confissão», poema de 1924: "quero viver, quero ser tudo,/ Só não quero ser o que sou!"
Hoje não importa tanto descrever Guilherme de Faria como bipolar ou mesmo neurasténico, mas sublinhar o impressivo sentido humano da sua vida, tão comoventemente manuscrito em centenas de papéis que – por esse amor que o acaso tem aos poetas – pude folhear como se por mim próprio tivessem sido manuscritos ou como se nada fosse por acaso.
E esse rapaz tão raro, amigo de poetas e artistas, que dedicou à poesia e aos livros mais vida do que normalmente pode a vida, no dia 4 de Janeiro de 1929, há 83 anos, desceu a rua do Alecrim e apanhou o comboio para Cascais na Estação Ferroviária do Cais do Sodré. Escreveu dois bilhetes-postais que endereçou ao irmão José; colocou-os no correio e seguiu, junto ao mar, até à Cidadela e depois pela Estrada da Boca do Inferno. Foi um caminho sem retorno. Descalço e com um terço de rezar ao pescoço, com apenas 21 anos de idade, Guilherme de Faria precipitou-se no mar. As fragas, a água fria e a violência das vagas reclamaram o seu corpo.
Como mais tarde escreveu Alfredo Pimenta, Guilherme de Faria foi "o último Poeta português, que aos 21 anos se deixou enfeitiçar pelo marulho das ondas e no seio destas se foi cantar a sua última estrofe."
No que diz respeito à sua poesia, procurei na segunda parte desta dissertação uma leitura hermenêutica, que fundamentalmente a contextualizasse numa perspectiva histórico-cultural e literária. Podemos situar cronologicamente a sua poesia entre 1920 – existem poemas inéditos, em manuscritos autógrafos, datados de 1920 – e 1928. Numa primeira fase, até
Mais Poemas [de 1922], Guilherme de Faria é um jovem poeta muito influenciado por Antero de Quental e, sobretudo, por António Nobre, e exprime-se preferencialmente em sonetos. É em
Poemas, o seu primeiro livro [também de 1922], que encontramos estas palavras: "E o Mar/ Anda a rezar/ Os meus versos de luz que ainda estão por escrever…"
Em 1924, Guilherme de Faria continua a ser um jovem poeta – nunca deixou de ser um jovem poeta… –, mas a edição de
Sombra representa uma mudança. Não se trata apenas do expectável amadurecimento de um poeta com 15 anos, mas de um processo que se estenderá até à edição de
Saudade Minha [em 1926] e que representa a construção de uma identidade poética: Guilherme de Faria, entre o aparecimento de tantos auspiciosos jovens autores e a maturidade literária de alguns dos mais notáveis poetas portugueses, torna-se talvez o mais quinhentista dos poetas neo-românticos lusitanistas, autor de poemas que nos lembram os Cancioneiros, num diálogo progressivamente mais íntimo com a morte, criando uma certa distância indefinida em relação à realidade, como se desistisse… como se que aquilo que era ontologicamente fosse incompatível e irreconciliável com a sua existência.
Em redondilha maior ou menor, os seus versos aproximam-se muitas vezes da mundividência de poetas como Afonso Lopes Vieira, António Correia d’Oliveira ou Mário Beirão; esporadicamente apropriam-se de questiúnculas integralistas; quase sempre conservam um rumor idiossincrático que lhes empresta uma limpidez e uma dolência muito próprias.
Guilherme de Faria tem, à partida, um conjunto de circunstâncias que condicionam profundamente a afirmação da sua singularidade, seja por se tratar de um poeta que morreu com apenas 21 anos – idade em que a generalidade dos mais reconhecidos poetas nem sequer estabeleceu o universo conceptual para um modelo de criação poética –, seja por se encontrar excessivamente contextualizado nos buliçosos anos 20, período de definições e redefinições, de complexas continuidades e descontinuidades, em que se movem saudosistas e futuristas, entre a Seara Nova de Raul Proença e a 2.ª Série da Nação Portuguesa de António Sardinha.
Parece-me determinante o seu contexto familiar e a mudança de Guimarães para Lisboa, naquilo que profundamente representa cada um dos espaços na construção de um imaginário nacional, na bipolaridade cidade/campo e na perspectiva idiossincrática de um poeta que, por um lado, potencia o volksgeist na sua expressão neo-romântica e integralista; e, por outro, assume a sua partida para Lisboa como um desterro, que o distancia dos loca sancta da sua infância. Este enquadramento biográfico possibilita uma personalidade poética rara, nimbada por uma certa dramaticidade, a que juntamos os contactos, as relações no meio literário e as circunstâncias que condicionaram o suicídio e que acabaram por redimensionar as implicações da sua precocidade.
Mas ainda não é isto que distingue Guilherme de Faria como poeta. Estamos na presença de um personagem complexo, profundamente idiossincrático, que estabeleceu, numa primeira fase [como referi], um diálogo perturbadoramente íntimo com Antero e, sobretudo, com António Nobre. Numa segunda fase, que discretamente assoma em
Sombra [de 1924] e se afirma em
Saudade Minha [de 1926], Guilherme de Faria desapega-se de um imaginário de artifícios simbolistas e assume-se claramente no enquadramento do Neo-Romantismo lusitanista. Entre meados de 1926 e o final de 1928, escreve três livros –
Destino,
Manhã de Nevoeiro e
Desencanto – que se adequam exemplarmente à expressão poética do Neo-Romantismo lusitanista.
Com efeito, se há algumas características marcadamente neo-românticas lusitanistas que não encontramos explícitas na poesia de Guilherme de Faria, encontrá-las-emos nas suas cartas. Assim, se a nostalgia da paisagem rural é um elemento presente no epistolário, nos seus poemas encontramos revivescências mediévicas e renascentistas, como transposição revivalista e tentativa de reintegração da sua poesia na tradição literária que Guilherme de Faria considera genuinamente nacional; nas cartas e nos poemas, encontramos o devaneio melancólico, a evasão passadista, a recuperação fictícia dos estádios volvidos do tempo, as compensações da fantasia, o casticismo, o historicismo nacionalista; percebemos a opção pelo popularismo estético, a valorização da espontaneidade e autenticidade que Guilherme de Faria reconhece na poesia popular.
A poesia de Guilherme de Faria é ainda marcada pela presença obsessiva do amor, pela sublimação do amor esponsalício… que se desvela numa lírica sentimental, numa poética expressivista, entre a novela camiliana e a poesia de João de Deus, sob o impulso bucólico e quinhentista de Bernardim e o ascendente de António Nobre.
E, de certo modo, já é isto que distingue a poesia de Guilherme de Faria, mais do que a inspiração sebástica, mais do que a marca integralista, trata-se da construção de uma personalidade literária e de uma subjectividade expressa através de um lirismo nocturno, doce e elegíaco, que dialoga intimamente com a morte e que integra o amor e a saudade de um modo singular, seja pela intensidade idiossincrática, seja pela evidente qualidade da sua poesia.
Apesar de algumas composições denunciarem previsibilidade, alguma anuência com os estereótipos, ou algum compromisso de circunstância, creio que Guilherme de Faria consegue superar o seu contexto geracional, consegue de facto superar aquilo que seria expectável de um poeta tão jovem e tão situado ideologicamente, e constrói não só uma obra profundamente representativa do Neo-Romantismo lusitanista, mas também um personagem poético extraordinário, excessivo, passional, em que a vida e a obra são perturbadoramente coerentes, em que o desfecho trágico da sua vida é verdadeiramente consequente com os seus versos, mesmo com esses versos de luz que ainda estão por escrever.
Aí radica, na minha opinião, a singularidade de Guilherme de Faria, entre o poeta que foi e o poeta que nunca chegou a ser, entre a intensidade existencial da sua poesia e a projecção literária da sua existência, entre a adequação exemplar ao universo conceptual da expressão poética do Neo-Romantismo lusitanista e uma poesia que ocasionalmente transcende um modelo mais ou menos circunscrito de contextualização, entre a herança cultural e poética de uma nação – que, simbolicamente, também nasce em Guimarães e se esvaece no Atlântico – e uma elegia profundamente idiossincrática, melopeia em que assomam o amor, a morte e a saudade.
E se existe algum estranhamento no contacto com os poemas de Guilherme de Faria, esse estranhamento resulta de um certo efeito anacrónico e regressivo, simultaneamente evasivo e intimista, que revela um poeta ontologicamente ferido e saudoso de si mesmo; esse estranhamento resulta de uma expressão vagamente escatológica e neo-platónica, entre a saudade de Deus e a iminência da morte.
A edição póstuma de
Saudade Minha (poesias escolhidas) [1929], uma antologia com cem poemas, representa o desejo do «poeta» sobreviver ao «homem»; é uma espécie de testamento preparado à sombra do suicídio, que o poeta ponderou intitular O Livro de Guilherme de Faria.
Imagino Guilherme de Faria: franzino, irrequieto, de grandes olhos negros a arder na face iluminada, saudoso dessa Vida que buscou na morte. Com a Saudade, por meio do suicídio, Guilherme não recupera apenas o passado como paraíso… inventa-o. Na verdade, foi isso que escreveu em versos de sombra, versos nocturnos… porque os versos de luz ainda estão por escrever.
Passados estes anos de contacto, por vezes dolorosamente íntimo, com a poesia, as cartas, os objectos pessoais de Guilherme de Faria, resta-me confessar que hoje, independentemente de qualquer coisa… sinto um alívio indescritível, uma certa descompressão… algo quase sacramental ou hierático, como se tivesse cumprido uma promessa ou terminado uma peregrinação.
Queria, finalmente, agradecer a todos quantos contribuíram, directa ou indirectamente, para esta Vida e Obra de Guilherme de Faria, particularmente à Sr.ª D. Teresa Leite de Faria, irmã do poeta [aqui presente], à Sr.ª Prof.ª Doutora Maria João Reynaud, orientadora desta dissertação, e à minha família, que tão generosamente acolheu Guilherme de Faria em nossa Casa. Muito obrigado.