2014-12-13

Tomás Costa e António Nobre | 1892



Tomás Costa nasceu em 1861, em Santiago de Riba-Ul [Oliveira de Azeméis]. Em 1882 ingressou na Academia Portuense de Belas-Artes, onde foi discípulo dos mestres Marques de Oliveira e Soares dos Reis, e condiscípulo de António Teixeira Lopes. Em 1885 concorreu ao lugar de pensionista do Estado, em Paris, e partiu para a capital francesa, onde estudou [com Alexandre Falguière e Antonin Mercier], esculpiu e participou em importantes exposições.
Em 1890, recém-chegado a Paris, António Nobre procurou Tomás Costa, que desenhou e esculpiu o busto do poeta em 1892 [ano da 1.ª edição do «Só»]. O desenho foi reproduzido na 2.ª edição do «Só» [em 1898] e o busto foi reproduzido em bronze pelas oficinas Sá Lemos [Vila Nova de Gaia] e integrado num monumento inaugurado no Porto [no Jardim da Cordoaria], em 1927.
Mais tarde, foram inauguradas réplicas em Coimbra, Penafiel, Funchal, Leça da Palmeira e Póvoa de Varzim. O poeta e o escultor regressaram a Portugal. António Nobre morreu no Porto, em 1900, e Tomás Costa morreu em Lisboa, em 1932. Este desenho e este busto revelam-nos um António Nobre jovem, apolíneo, e testemunham poeticamente esse encontro, em Paris.

2014-12-12

Acerca do desterro...

Em Paris : «L’homme qui, à force de se concentrer, disparaîtrait de la vie — exilé dans son monde intérieur…» [Mário de Sá-Carneiro]

No dia 10 de janeiro de 1890, em Coimbra, com apenas vinte anos, Eugénio de Castro apresenta [em quatro páginas] o seu «Oaristos» como arauto do Simbolismo num contexto literário em que, segundo ele: «Com duas ou três luminosas excepções, a Poesia portuguesa contemporânea assenta sobre algumas dezenas de coçados e esmaiados lugares comuns.» No dia seguinte, o embaixador de Inglaterra em Lisboa entrega ao ministro dos Negócios Estrangeiros português o Ultimato, exigindo que Portugal ordenasse imediatamente a retirada de uma expedição militar que atacara alguns indígenas protegidos pelos ingleses na África Oriental, no Chire [atual Malawi]. O Governo português cedeu, apesar de ter protestado e argumentado que o território africano em que o confronto se dera pertencia a Portugal. Na noite desse dia 11 de janeiro, um milhar de pessoas percorreu as ruas de Lisboa e apedrejou as janelas da casa do ministro dos Negócios Estrangeiros. O governo demitiu-se.
No Porto, a resistência ao Ultimato significou a consagração cívica de Antero de Quental. Eleito presidente da Liga Patriótica do Norte, Antero passaria algumas noites a ver desfilar cortejos com archotes diante da casa onde estava hospedado. Ao contrário do que se passava em muitos países, onde o herói nacional era geralmente um chefe militar, em Portugal, no centro do culto patriótico estava também um escritor.
Em Lisboa, por esses dias, Águeda Maria Peres Murinello [então com vinte anos] está grávida de Mário de Sá-Carneiro, que nascerá no dia 5 de maio de 1890 [quatro dias depois de Mário Beirão ter nascido em Beja]. Em Cumaná [na Venezuela, junto ao Mar das Caraíbas], Rita Sucre Mora de Ramos [então também com vinte anos] está grávida de José Antonio Ramos Sucre, que nascerá no dia 9 de junho desse mesmo ano de 1890, oito dias depois de Camilo Castelo Branco ter posto fim à sua vida em São Miguel de Seide [Famalicão].
A Torre Eiffel não tinha ainda dois anos quando, no dia 26 de outubro de 1890, António Nobre chega a Paris e instala-se no n.º 2 da Rue Racine. Esta reflexão nasce muito perto dessa e das outras moradas que António Nobre teve em Paris, no Café de la Nouvelle Mairie, num fim de tarde frio de dezembro.
Há pouco, descendo de Montmartre para a Opéra, passei pela Rue de Trévise. Lembrei-me de um encontro em 1891, no edifício da esquina das ruas de Trévise e Richer. Sampaio Bruno tinha chegado a Paris, exilado da fracassada revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891, no Porto. Lêem-se estas palavras de Sampaio Bruno no prefácio de Despedidas [livro póstumo de António Nobre]: «Na escura rua de Trévise me procurou, abandonando por horas a sua preferida margem esquerda, de que lhe era tão penoso afastar-se, António Nobre, uma tarde em que eu sofria cruelmente. Esta visita sensibilizou-me; como me encantou a conversação do poeta, pelo tom subtil da melindrosa reserva na consolação, a um tempo caridosa e primorosa, d’um’alma em carne viva, como a minha por então andava.»



António Nobre, nessa tarde de 1891, abandona o [seu] Quartier Latin e visita Sampaio Bruno, no Quartier du Faubourg-Montmartre, num desses quartos para exilados, onde a solidão é tantas vezes irredimível e são raros os milagres. Na Rue de Trévise encontraram-se dois dos mais importantes intelectuais portugueses do século XIX: o filósofo e o poeta. Por um instante, o spleen de Paris foi mais português do que nunca.
Por esses dias, Antero suicida-se em Ponta Delgada [no dia 11 de setembro], sob a Âncora da Esperança, [em outubro, segundo Fernando Pessoa, Álvaro de Campos nasce em Tavira] e Rimbaud morre no Hôpital de la Conception, em Marselha [no dia 10 de novembro]. Baudelaire já dormia no Cemitério de Montparnasse desde 1867 [ano em que nasceram Raul Brandão, António Nobre e Camilo Pessanha] e seria preciso esperar 25 anos para que Mário de Sá-Carneiro pusesse fim à sua vida no Hotel de Nice, em Montmartre, no dia 26 de abril de 1916.
Talvez não seja importante, mas [para mim] o encontro entre Sampaio Bruno e António Nobre, na escura rua de Trévise, em Paris, é um daqueles momentos muito raros, com uma beleza secreta, escondida, desadornada. As palavras de Sampaio Bruno são como uma melopeia, guardam essa tristeza remidora que reconhecemos naquelas «canções que/ as mães dedicam aos filhos doentes» [como se lê num poema de José Tolentino Mendonça].
Durante esses anos em Paris, António Nobre perde o irmão Júlio [em 1892] e o pai [José Pereira Nobre, no ano seguinte], regressa algumas vezes a Portugal, aparecem os primeiros sintomas de tuberculose, surgem dificuldades económicas e licencia-se em Direito na Sorbonne [no princípio de 1895]. No dia 21 de abril de 1892, o livreiro Léon Vanier [editor de Mallarmé, Verlaine e Rimbaud] publica o «Só», livro que, quando o folheamos e lemos no Quartier Latin, nos dói como nenhuma ausência [ou perda] até então nos tivesse assim doído. Oito anos depois da edição do «Só», António Nobre morre no Porto, vítima de tuberculose ou dessa enfermidade que não é bem tristeza, nem é só saudade e que tem a ver com o facto de certos poetas serem [ainda] aqueles seres humanos que existem mais desapaixonadamente, porque por instantes conheceram uma beleza incontida e inefável [um milagre...], e parece-lhes trágico ter de suportar o resto da vida. Fernando Pessoa, num parágrafo comovente, evoca assim António Nobre: «Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um de nós traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria, é ele ainda, e a vida dele, nunca perfeitamente real nem com certeza vivida, é, afinal, a súmula da vida que vivemos — órfãos de pai e mãe, perdidos de Deus no meio da floresta, e chorando, chorando inutilmente, sem outra consolação do que essa, infantil, de sabermos que é inutilmente que choramos.»

«Acerca do desterro: António Nobre, Mário de Sá-Carneiro e Guilherme de Faria. Teias contextuais, intertextuais e intratextuais [1890-1930]», in Boletim de Trabalhos Históricos [Arquivo Municipal Alfredo Pimenta . Guimarães], 2014, pp. 8-28.

2014-12-10

«Romances sans Paroles» | 1887



No dia 10 de junho de 1891, Eugénio de Castro assina a capa do seu exemplar de «Romances sans Paroles», de Verlaine, edição datada de 1887, impressa em Paris por Léon Vanier, que em 1892 [apenas cinco anos depois...] seria o editor do «Só», de António Nobre, então em Paris.

2014-12-05

As crianças de Fátima e a visão do [in]visível



Quando um dos meus filhos, com algum espanto, me pergunta: Estás a ver?, fico invariavelmente apreensivo. Temo não ver. Sinto que aquilo que eu vejo não corresponde àquilo que ele está a ver ou quer que eu veja. Temo decepcioná-lo. E não se trata de uma angústia despropositada, mas da consciência de que na minha infância ocorria sentir-me só diante das minhas visões, com algum receio de ser incompreendido ou de sentir-me ainda mais só por ver algo que, ao meu redor, ninguém conseguia ver. E o que via? Coisas que veem as crianças, com a liberdade de não estar ainda condicionado pelos compartimentos estreitos do visivelmente correto, poder ser sinestésico e usufruir de outras disfunções antes de ser sinalizado para um gabinete de psicologia. A infância é esse tempo em que, com mais ou menos consciência, nos vamos progressivamente decepcionando com as limitações dos adultos, com a sua insensibilidade e falta de empenho no exercício da vidência. Creio que aceitamos a inevitabilidade do estado adulto sob o peso das decepções.
Com o tempo, ter visões não significa o mesmo que ver. São coisas diferentes. Na infância é quase indistinto ver e ter visões. É o impacto do tempo nas estâncias da vida que nos permite ver mais com olhos de ver e nos impõe ver menos com olhos de ter visões. Desde um ponto de vista pragmático, tornamo-nos mais eficientes a ver e necessariamente menos videntes.
Talvez todas as crianças partilhem de algum modo a vidência. Algumas – muito poucas – permanecem videntes por toda a vida. E outras – também poucas – recuperam a vidência depois de tê-la perdido no fim da infância. Creio que há graus de vidência: há crianças mais videntes do que outras. Ou seja: nem todas perscrutam do mesmo modo as transparências mais ténues, as mais secretas vibrações dessa invisibilidade onde, entre outros mistérios, Deus segreda intimamente aos homens palavras impronunciáveis, imagens só visíveis por dentro da sua intrínseca invisibilidade.
Acredito que quando um dos meus filhos me pergunta: Estás a ver?, pode ser Deus que me chama a ver algo que só é visível aos olhos de quem tem visões, e não aos olhos de quem apenas vê. E naquilo que vemos, porquanto já não temos visões, escapa-nos essa beleza que – como escreveu Afonso Lopes Vieira – justifica o mundo.
Perguntam-me frequentemente se acredito nas aparições de Fátima. A pergunta traz normalmente a provocação insinuante de quem ou parte erradamente do pressuposto que acreditar nas aparições de Fátima é o mesmo que acreditar em Deus, ou defende preconceituosamente a teoria do embuste. Confesso que nem os meus estudos teológicos me tornam um especialista sobre Deus, nem a leitura da mensagem de Fátima me ajuda a visualizar as visões daquelas crianças. Acredito sinceramente que se trata de uma questão de humildade: quanto mais bons livros de teologia leio, mais denso se torna o meu silêncio sobre Deus; do mesmo modo, quanto mais olho a fotografia daquelas três crianças, mais penso nas suas visões, mas de um modo embaçado, procurando abstrair-me do conteúdo da mensagem, do vocabulário, da construção sintática. Perdemos muito tempo a tentar racionalizar realidades que não são de ser racionalizadas. Racionalizar tem, neste contexto, o propósito de possuir; é um compreender possessivo: compreendemos o que conseguimos compartimentarizar no espaço muita vezes exíguo da nossa razão. E temos a ilusão ligeiramente perversa de que, assim, essa realidade nos pertence. Não deixa de ser um exercício de tacanhez.
É como quando enjaulamos animais selvagens nos compartimentos dos nossos jardins zoológicos, procurando com truques de cosmética incutir a sensação de que estamos numa selva indiana a poucos metros de um tigre, quando na verdade isso não passa de um lenitivo para um imaginário miseravelmente pobre. Eu recusar-me-ia a visitar uma réplica do Taj Mahal que construíssem na minha cidade. Eu que, se pudesse, viajaria até à Índia com o único propósito de ver o Taj Mahal. Eu que tenho a certeza de que o Taj Mahal que eu vejo quando fecho os olhos é significativamente mais esplendoroso do que o verdadeiro Taj Mahal e incomparavelmente mais autêntico do que a réplica que construíssem na minha cidade.
É como quando, depois de enjaularmos obras de arte num museu, passamos pelos corredores a fotografá-las ou a filmá-las. Ou como quando fotografamos ou filmamos a atuação dos nossos filhos na festa da escola. Há uns anos enjaulávamos realidades em álbuns de fotografias e em cassetes de vídeo, agora enjaulamo-las em formatos digitais... sempre com o mesmo pretexto [quase sinistro] de guardá-las e revê-las sempre que demiurgicamente quisermos recuperar o passado. O problema é que perdemos o presente: não chegámos a olhar contemplativamente a obra de arte, não chegámos a olhar contemplativamente os nossos filhos; estivemos preocupados com o enquadramento, com a bateria da máquina, com as pessoas que passavam à nossa frente. Infelizmente, trocamos o presente por uma relíquia desfocada que talvez não voltemos a ver, que talvez não produza prazer quando eventualmente a reproduzirmos e que nos impediu a experiência contemplativa.
Conheço gente que reduz a sua experiência espiritual a uma pagela ou a objetos com pretensão de relíquia barata, apologia da feiura e da mediocridade a que tentadoramente cede o comércio religioso. Eu prefiro não ver Nossa Senhora a vê-la numa pagela feia ou numa estatueta fosforescente.
Não estou a desviar-me do sentido da minha reflexão. É claro que as nossas crianças tiveram e continuarão a ter visões, visões tão autênticas e impressivas que carecem do nosso imaginário, não só para que as aceitemos, mas também para que possamos partilhar a sua beleza... sim, essa beleza que justifica o mundo. Quem olha, vê. Quem olha contemplativamente, tem visões. E são as pessoas que têm visões que justificam o mundo.
Não guardo o amor da minha mãe numa caixa, nem numa fotografia. A mensagem de Fátima é uma explicação, tenta racionalizar uma experiência não racionalizável. O que aquelas crianças viram não se circunscreve ao folclorismo com que a história nos é contada. Não gosto de jardins zoológicos e os museus servem para o que servem, assim como as caixas, assim como as máquinas de fotografar ou de filmar.
Penso no que aquelas crianças viram quando tiveram as visões: uma luz, uma imagem nas transparências mais ténues, nas mais secretas vibrações dessa invisibilidade onde, entre outros mistérios, Deus segreda intimamente aos homens palavras impronunciáveis, imagens só visíveis por dentro da sua intrínseca invisibilidade. Se não encontrarmos beleza nas visões daquelas crianças, a mensagem de Fátima não poderá justificar o mundo.
O que aconteceu em 1917, na Cova da Iria? Não sei. Não posso saber. Mas se fechar os olhos, o meu imaginário ajoelha-me diante da azinheira e sinto uma comoção como se fosse o amor de Deus ou algo igualmente belo para o qual ainda não existam palavras. Fecho os olhos porque, como escreveu Jorge Melícias, a cegueira é ainda uma forma de ver. Fecho os olhos e uma das crianças pergunta-me com algum espanto: Estás a ver? Não respondo. Não tenho palavras.

«Os vossos jovens terão visões [Joel 2, 28] — As crianças de Fátima e a visão do [in]visível», in Fátima XXI — Revista Cultural do Santuário de Fátima, n.º 2 [13 out. 2014], pp. 64-66.

2014-12-03

Boletim de Trabalhos Históricos | 2014



Apresentação do Boletim de Trabalhos Históricos 2014 [Arquivo Municipal Alfredo Pimenta — Guimarães], com o meu ensaio: «Acerca do desterro: António Nobre, Mário de Sá-Carneiro e Guilherme de Faria. Teias contextuais, intertextuais e intratextuais [1890-1930]».

2014-11-26

Valter Hugo Mãe no CLF



Ontem acolhemos o Valter Hugo Mãe no Colégio Luso-Francês, no contexto da Feira do Livro. Conversámos sobre literatura, sobre os livros da nossa vida e sobre a vida dos nossos livros. Hoje, em Paris, nos intervalos da leitura de «Poésies Complètes» do Mário de Sá-Carneiro, comecei a escrever o ensaio «Uma tigela japonesa em tons de azul para Valter Hugo Mãe».

«Je ne suis ni moi ni l'autre,
Je suis quelque chose d'intermédiaire:
Pilier du pont d'ennui
Qui va de moi à l'Autre.»

Mário de Sá-Carneiro, «Poésies Complètes», Paris, Minos / La Différence, 2007, p. 107.

2014-11-22

Primeiros versos



Embrenhado na transcrição de poemas inéditos de Guilherme de Faria... Neste manuscrito autógrafo, assinado e datado [outubro de 1920], pode ler-se, entre parêntesis, por baixo do título: «primeiros versos».

2014-11-20

Universidad Pontificia de Salamanca



No dia 14 de novembro de 2014, assinei um convénio de colaboração entre a Cátedra Poesia e Transcendência [da Universidade Católica Portuguesa] e o Instituto de Pensamiento Iberoamericano [da Universidad Pontificia de Salamanca] — com Ángel Galindo, reitor da UPSA.

2014-11-17

O Regresso de Guilherme de Faria...



No dia 7 de novembro, no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, pronunciei a conferência «O Regresso do Poeta Guilherme de Faria a Guimarães. Estiveram comigo a Dr.ª Adelina Paula Mendes Pinto [vereadora da Câmara Municipal de Guimarães] e a Dr.ª Alexandra Marques [diretora do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta]. Neste "regresso" simbólico, comprometi-me com a doação do espólio literário de Guilherme de Faria ao Arquivo Municipal: os documentos de Guilherme de Faria que recuperei desde 2006 ficarão guardados no centro histórico da cidade onde nasceu há 107 anos.

2014-11-11

Raízes

Há uns dez anos, Amin Maalouf publicou «Origens». Numa entrevista, Maalouf disse: «Não gosto da palavra "raízes" e da imagem ainda menos. As raízes enfiam-se na terra, contorcem-se na lama, crescem nas trevas; mantém a árvore cativa desde o seu nascimento e alimentam-na graças a uma chantagem: "Se te libertas, morres!" As árvores têm de se resignar, precisam das suas raízes; os homens não. Respiramos a luz, cobiçamos o céu e quando nos metemos na terra é para apodrecer. A seiva do solo natal não nos sobe pelos pés em direção à cabeça, os pés só nos servem para andar. Para nós só os caminhos contam.»
Desde então, ainda que continue a agradar-me significativamente o conceito "origens", lido com muitas dificuldades com "raízes", na medida em que não consigo dissociar este conceito da perspectiva de Maalouf. É verdade... quando mais penso em raízes, mais me sinto do caminho.

2014-11-09

Amonite



Há uns dias, numa feira de minerais no Colégio Luso-Francês, comprei uma amonite [molusco cefalópode fóssil] do período jurássico, com mais de duzentos milhões de anos. Entre outros fósseis e milhares de livros, na minha biblioteca, esta amonite ajuda-me a relativizar o tempo. No fundo, é uma metáfora da natureza hierática da temporalidade. Lembrei-me das palavras do Padre António Vieira: «Tudo cura o tempo, tudo esquece, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera!»

2014-11-05

Catedral de Chartres



Um dia, o rei Luís IX, S. Luís de França, visitou as obras da Catedral de Chartres, em reconstrução depois do seu incêndio em 1194, causado por um raio. O rei, passeando pela construção, ia perguntando a cada um o que estava a fazer. As respostas foram várias. Um carpinteiro afirmou-lhe que estava a fazer um dos bancos da nave central; um pedreiro lamentou-se que estava a trabalhar para ganhar a vida e dar de comer aos filhos; um escultor, apontando para um capitel, a que dava os últimos retoques, explicou que estava a seguir as novas regras da arte gótica, criando uma linha decorativa revolucionária. Depois de perguntar a muita gente e de ter recebido respostas variadas, o rei encontrou, num canto escuro, um velhinho curvado que varria aparas de madeira. Quando o rei lhe perguntou o que estava a fazer, o velho respondeu: «Estou a construir uma catedral».

2014-11-02

Instante



Hoje, a caminho da Capela de Fradelos, quando saía da VCI para o jardim de Arca d’Água, vi um homem com um saco azul às costas, uma gaiola amarela na mão direita e uma reprodução da Mona Lisa na mão esquerda. Pareceu-me uma imagem poética: a gaiola vazia, a Mona Lisa, um certo desadorno... uma qualquer metáfora da condição humana: a liberdade representada numa gaiola vazia; a corrução simbolizada no "saco azul"; a desconstrução da valoração da arte numa reprodução pobre da Mona Lisa. O homem seguiu pelo passeio e eu pensei: se escrever sobre esta imagem, talvez não passe de um exercício literário. E a realidade e os exercícios literários são estranhamente indissociáveis na minha vida. Enquanto viro à direita, ligo a câmara do iPhone e, de passagem, fotografo o homem através da janela do meu carro. Uma única fotografia. Pouso o iPhone. Depois de estacionar, junto à Capela de Fradelos, fui ver... e ali estava, como por milagre. Não se vê a gaiola. E a fotografia está desfocada, como a própria realidade.

2014-10-31

Angelo Giuseppe Roncalli | 1881-1963

Lembrei-me de uma história de João XXIII contada por Hannah Arendt: «Que outra coisa pregava ele senão a humildade quando contava aos amigos que as novas e temíveis responsabilidades do pontificado de início o tinham preocupado enormemente, chegando a fazê-lo passar noites em claro — até que certa manhã disse para consigo: "Giovanni, não te leves tão a sério!", e a partir daí dormiu sempre bem.»

2014-10-29

Regresso a Guimarães



No dia 7 de novembro [6.ª-feira], às 18 horas, no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta [Guimarães], pronunciarei a conferência: "O regresso do poeta Guilherme de Faria a Guimarães". No final, serão apresentadas as edições de «O Livro de Guilherme de Faria I — Saudade Minha [poesias escolhidas]» e a minha dissertação de doutoramento em Literatura: «Vida e Obra de Guilherme de Faria — Os versos de luz por escrever».

2014-10-27

«A Confissão de Lúcio» | 1914



Mário de Sá-Carneiro [1880-1916]
1.ª edição — 1914. Lisboa, em casa do autor [1, Travessa do Carmo]. «Acabado de imprimir para o autor nos prelos da Tipografia do Comércio em 1 de novembro de 1913.»

2014-10-24

Palestrina



É oficial: estou cansadíssimo. Olhei para uma parede, junto à Rua de Cedofeita e li: «Palestrina vencerá!» Fiquei apreensivo: teria a juventude comunista proposto uma campanha de fomento da audição de música sacra? E eu, que sou sensível à causa da Palestina, mas amo Palestrina... depois de ter focado, senti uma certa tristeza. Como seria bom viver num mundo onde as grandes causas pudessem centrar-se na musicologia e na melomania. Sim: Palestrina vencerá!

2014-10-22

Alexandre de Córdova | 1896-1969

Alexandre de Córdova [Alexandre Francisco Ferreira] nasceu em Santo Tirso a 11 de novembro de 1896. Estudou Direito nas Universidades de Coimbra e de Lisboa. Ilustre advogado da Comarca do Porto, era possuidor de uma notável oratória. Destacou-se ainda como poeta. Morreu em 1969.

No final da década de 20 publicou «Rosas de Malherbe», livro dedicado a Teixeira de Pascoaes [1877-1952], com uma carta-prefácio de Júlio Brandão [1869-1947]. O que significa a expressão «Rosas de Malherbe»? Diz-se de algo efémero, que tem «a duração da rosa de Malherbe». A locução tem origem numa poesia do poeta francês François Malherbe [1555-1628], na qual se lê:

«Mais elle était du monde où les plus belles choses
Ont le pire destin;
Et rose elle a vécu ce que vivent les roses,
L'espace dun matin.»

[«Mas era ela do mundo onde as mais belas coisas
Têm o pior destino;
E rosa ela viveu o que vivem as rosas,
Uma breve manhã.»]

Conheço três livros de Alexandre de Córdova:




«Magnólia — Rimas d’Amor e de Primavera». 1.ª edição, 1920. Poesia. Gaia, Tipografia 5 de Outubro [Rua Cabo Borges, 177]. Depósito: Livraria Chardron de Lello & Irmão [Rua dos Carmelitas, 144 – Porto]. Fotografia com um busto de Alexandre de Córdova: escultura de Maurício d’Almeida.

«Rosas de Malherbe». 1.ª edição, s.d. [1928?]. Poesia. Porto, Emp. Industrial Gráfica do Porto [Rua dos Mártires da Liberdade, 178]. Depositária: Livraria Fernando Machado & C.ª [Rua dos Carmelitas, 15 – Porto]. Carta-prefácio de Júlio Brandão.

«Primavera Voluptuosa». 1.ª edição, 1953. Poesia. Porto, Editora Educação Nacional. Retrato do autor da autoria de Tomaz Pelayo. Capa da autoria de Joaquim Lopes. Nota final: «Este livro foi composto e impresso na Tipografia  Santarém, da minha florida terra de Santo Tirso, em janeiro do ano de 1953, e cuja preparação foi anunciada há já vários anos, não é o mesmo de então. Dele ficou o título, a sua estrutura e muitas das composições poéticas desses dias idos; e o autor foi compondo, ao longo da vida, outras poesias que fazem parte do presente volume. A demora da sua publicação deve-se a diversos factores que ao leitor em nada interessarão. Mas mais vale tarde do que nunca. Venha este livro, ao menos, a tempo de demonstrar que o autor ainda não deixou enferrujar as cordas da sua, porventura, desafinada lira.»

2014-10-20

Colóquio / Letras 187



Só hoje me chegou às mãos o número 187 da COLÓQUIO Letras [set./dez. 2014]. Neste número, com um dossiê dedicado a Agustina Bessa-Luís, o mestre Fernando Guimarães publica uma recensão crítica à edição da minha dissertação de doutoramento: «Os versos de luz por escrever — Vida e Obra de Guilherme de Faria» [Cosmorama Edições, 2013], nas páginas 274 e 275. O mesmo Fernando Guimarães, entre as páginas 239 e 241, apresenta uma recensão crítica de «Alvídrio», de Jorge Melícias [Cosmorama Edições, 2014].

2014-10-17

Biblioteca

Julio Ramón Ribeyro escreveu: «A biblioteca pessoal é um anacronismo. Ocupa demasiado espaço em casas cada vez mais pequenas, fica cara e nunca é realmente aproveitada, tendo em conta o seu custo ou dimensão. Um livro lido, bem vistas as coisas, não está já no nosso espírito, sem ocupar espaço? Para quê conservá-lo, então? E por acaso não abundam, atualmente, as bibliotecas públicas, nas quais podemos encontrar não só aquilo que queremos, mas mais do que queremos? A biblioteca pessoal responde a necessidades de tempos idos: quando se vivia num castelo ou num solar, que por estarem longe do mundo obrigavam a que se tivesse o mundo à mão, encadernado; quando os livros eram raros e muitas vezes únicos e era imperioso possuir o cobiçado incunábulo; quando as ciências e as artes evoluíam com menos rapidez e o conteúdo dos livros podia manter-se válido por várias gerações; quando a família era mais estável e sedentária, e a biblioteca podia transmitir-se numa mesma morada e divisão e nos mesmos armários sem perigo de dispersão. Estas circunstâncias já não se verificam. E, no entanto, há loucos que querem ter todos os livros do mundo. Porque são demasiado preguiçosos para ir às bibliotecas públicas; porque acham que basta olhar para a lombada de uma coleção para pensar que já a leram, porque se tem vocação de coveiro e se gosta de estar rodeado de mortos; porque nos atrai o objeto em si, à margem do seu conteúdo, o cheiro, o tato. Porque uma pessoa acredita, contra toda a evidência, que o livro é uma garantia de imortalidade e que formar uma biblioteca é como edificar um panteão no qual se gostaria de ter reservado o seu próprio nicho» [«Prosas Apátridas», Porto, Edições Ahab, 2011, pp. 113-114].



Gostaria de desconstruir e contradizer estes argumentos. Eu que sou «aprendiz de bibliófilo», um desses loucos que, se não quer ter todos os livros do mundo nas estantes da sua biblioteca pessoal, não se importa de ter aí arrumados alguns deles. Não, não sou demasiado preguiçoso para ir às bibliotecas públicas. E não, não creio que exista a pretensão de edificar um panteão. Talvez o problema seja a minha «vocação de coveiro», essa desoladora tendência para interagir com os mortos. Sim... tenho regressado à minha biblioteca por estes dias, com a consciência de que é um bom sítio para ir morrendo até que a morte venha.

Vieira da Silva | «Biblioteca», 1949 ... a escutar «My Heart's in the Highlands», de Arvo Pärt [«Creator Spiritus», 2012].

2014-10-15

Roma

Chove em Roma.
Por todo o lado a perturbadora consciência de que a beleza de uma cidade reside na relação simbiótica entre habitá-la e permitir que ela nos habite. Por todo o lado a perturbadora consciência da distância a que nos situamos de todas as coisas, a promessa ingénua de que aqui seria feliz, como se pudesse de facto ser feliz ou como se a felicidade não fosse uma promessa tão efémera quanto o corpo de uma mulher, o sabor do café no fim da boca, o calor da chávena nas mãos. Sinto que aqui seria feliz porque me sinto habitado e ainda assim, em cada estância, antecipo o regresso.

Continua a chover em Roma.
Interessam-me fundamentalmente duas coisas numa cidade: as perspectivas e os pormenores. Por vezes, aborrece-me tudo o que existe entre as perspectivas e os pormenores. Detenho-me sobre a Ponte de Sant'Angelo. Integro no meu campo de visão o Castelo [à direita] e a Basílica de S. Pedro [ao fundo], a extraordinária cúpula que Michelangelo concebeu. É uma perspetiva. Seria lamentável ter morrido sem tê-la integrado na construção da minha identidade. Depois mergulho no emaranhado de ruas, pela Via dei Coronari até à Fontana dei Quattro Fiumi, na Piazza Navona. Faço a sinestésica experiência do ocre que inunda Roma, os tons baços, entre um amarelo antigo e um vermelho esbatido, como se a cidade conservasse uma existência de terracota, de terra calcada, de pedra ferida. É outra perspetiva. Depois há os pormenores: o elefante de Bernini ou o túmulo de Fra Angelico em Santa Maria sopra Minerva, a tensão entre Bernini e Borromini na Piazza Navona, o Pasquino ou uma mulher que atravessa o Campo de Fiori com o poder de incendiar um coração. Perspetiva e pormenor. A Fontana di Trevi ou o melhor café do mundo: um grancaffé zuccherato no Sant'Eustachio.
Pergunto se haverá em Roma tantos discípulos de Cristo quantas igrejas. Entretanto, morreu Ivan Iliitch, mas em Roma não se lê Tolstói. Em Roma aprende-se o tom ocre dos dias, um tão mediterrânico elogio da vida, por dentro de uma tão intensa cumplicidade com os sulcos da morte.

Roma acordou soalheira, o que intensifica os tons ocres da cidade. Detenho-me uns minutos diante da Fontana dei Quattro Fiumi, antes de um grancaffé zuccherato no Sant' Eustachio. Passei a manhã no Museu do Vaticano, em passo acelerado… porque em Roma o tempo é um bem excessivamente valioso para ser desperdiçado dentro de um museu. Sim, prefiro as ruas aos museus. Os museus estão para as obras de arte como os jardins zoológicos para os animais. No fundo, aborrece-me o modo como a tentação cosmética da compartimentarização condiciona a nossa liberdade: os infantários e as escolas tornaram-se depósitos de crianças, os lares de terceira idade depósitos de velhos, há bairros que são depósitos de ricos e bairros que são depósitos de pobres, e os museus são depósitos [arrumados, mas muitas vezes descontextualizados] de obras de arte. Tudo isto para justificar o meu passo acelerado. Ainda assim comovi-me com a coleção de pintura gótica, com um ou outro ícone bizantino, com um sarcófago paleocristão ou com a Pietà de Vincent van Gogh. E no fim de trajetos sinuosos, depois da Scuola di Atene de Raffaello, entra-se na Cappella Sistina. Já está tudo dito sobre a Cappella Sistina. Por momentos não me importam os enredos histórico-culturais, nem os contextos eclesiais. Interessam-me as cores, os diálogos, as idiossincrasias que transformaram aquele espaço numa caixa-de-ressonância para o meu imaginário. Sinto que a minha existência seria irremediavelmente mais pobre sem Perugino, Botticelli e Michelangelo. Não sei em que abismos de luz perdura a identidade espiritual de Michelangelo, mas ali, diante do Juízo Final, agradeci silenciosa e comovidamente a sua existência.



Depois do Museu do Vaticano, a Basílica de S. Pedro. Ainda não tenho palavras que exprimam o que se sente num lugar como aquele. Outra vez Michelangelo, na formosíssima Pietà, a memória de Palestrina, o baldaquino de Bernini, as dimensões verdadeiramente impressivas da Basílica, de cada estátua, de cada ornamento. Penso na impudência e no destempero, na megalomania dos 'príncipes da Igreja' que legitimaram tudo aquilo em nome de Jesus de Nazaré, em memória de Pedro, o pescador de Betsaida, que viveu em Cafarnaum e pescou no Mar da Galileia. É uma perturbadora contradição: aquela Basílica — e tudo aquilo que ela representa e tudo aquilo que a envolve — é uma poderosa e perversa subversão do Evangelho.
Depois, caminhando pela Via dei Coronari, pensei que a própria teologia é tantas vezes o meio de legitimação dos processos eclesiais de subversão do Evangelho. E depois silenciei-me com mais um grancaffé zuccherato no Sant' Eustachio. E depois silenciei os murmúrios persistentes com o melhor gelado do mundo, na Giolitti. E depois a cidade: a Isola Tiberina, Andrea Pozzo na Igreja de Sant'Ignazio di Loyola, Caravaggio na Igreja de San Luigi dei Francesi e na Igreja de Sant'Agostino, a Chiesa del Gesù, a Piazza Venezia e a Piazza del Campidoglio, e o Foro Romano... os arcos de Septímio Severo, de Tito e de Constantino, junto ao Coliseu. A avassaladora densidade do tempo e do espaço. O que somos não chegará a ser ruínas. E aquelas ruínas, de uma beleza comovente, negam assertivamente o epíteto de Roma: Città Eterna. Nascida no sangue de Remo na espada de Rómulo, Roma é a mais eloquente expressão da glória que nos é prometida na juventude e que só experimentamos verdadeiramente se ingenuamente esquecermos que o resto da nossa vida será um impiedoso envelhecimento que nos conduzirá inexoravelmente à morte.

Último dia em Roma: o Êxtase de Santa Teresa na Igreja de Santa Maria della Vittoria, Santa Susanna de Carlo Maderno, San Carlo alle Quattro Fontane de Borromini. Nas páginas do meu moleskine, um emaranhado de anotações: datas, nomes de escultores, arquitetos e pintores, referências a obras de arte e lugares, ruas e praças, itinerários e curiosidades da história da cultura e da arte. Sigo pela Via delle Quattro Fontane até à Basílica de Santa Maria Maggiore, depois a Basílica de San Giovanni in Laterano e, finalmente, a Basílica de San Paolo Fuori le Mura. E ainda Caravaggio na Igreja de Santa Maria del Popolo, a Piazza di Spagna e o regresso às ruas estreitas. Em Roma, a sofisticação convive com uma certa desarrumação orgânica, entre canteiros de flores e carros mal estacionados, terrazze e piazze, e tudo aquilo que vejo e não digo, porque não há tempo para encontrar as palavras.

Sim, em Roma lê-se Tolstói. O próprio Ivan Iliitch explicou-me que por vezes vivemos uma vida que consideramos adequada às nossas expectativas sociais, na definição e defesa mais ou menos obstinada de um status quo. Explicou-me que, enquanto vivemos essa vida, estamos mortos. Creio que já o sabia, mas é importante repeti-lo, tantas vezes quantas forem necessárias para consciencializá-lo e integrá-lo no quotidiano, porque a vida concreta de todos os dias não é menos comovente ou impressiva do que Michelangelo, Caravaggio, Bernini ou Pozzo. | Roma, janeiro de 2012

2014-10-13

«Céu em Fogo» | 1915



1.ª edição, 1915 [oito novelas].
Lisboa, Livraria Brasileira — Monteiro & Comp.ª [Rua Áurea]. "Acabou de se imprimir este volume do «Céu em Fogo» aos 28 de Abril de 1915, nos prelos da Tipografia do Comércio, 10, Rua da Oliveira, ao Carmo, Lisboa. A fotogravura da capa foi executada nos ateliers de A Ilustradora, 17, Largo do Carmo, Lisboa."
Capa de José Pacheco [1885-1934].

Este exemplar pertenceu a Alberto Telles-Machado, que o assinou em 1918. Creio que se trata de Utra Machado, amigo de Fernando Pessoa.



Fernando Pessoa e Utra Machado, na Rua Augusta [Lisboa]. Cf. Maria José de Lencastre, «Fernando Pessoa — Uma Fotobiografia», Lisboa, Imprensa Nacional — Casa da Moeda / Centro de Estudos Pessoanos, 1986, p. 341.

2014-10-10

José Bruges d'Oliveira | 1899-1952

Durante muitos anos procurei elementos para uma contextualização histórico-literária da vida e obra de José Bruges d'Oliveira. Apesar das dificuldades, consegui finalmente descobrir um conjunto de documentos que me permitirão restituir este poeta à História da Literatura Portuguesa.
José Bruges d’Oliveira nasceu em Lisboa, no dia 6 de julho de 1899. Estudou Direito em Coimbra. Entre os livros que publicou, destacam-se: «Da Terra e do Mar» [1917], «As minhas Cantigas» [1918], «Missal do Amor» [1919, com o pseudónimo de José Lupi de Mena], «Versos Fúteis» [1920], «Ophir» [1921], «Canções do Longe e do Perto» [1922] e «Baladas ao Vento» [1929]. Em 1950 reúne em «Memorial» poemas escritos entre 1930 e 1945.
Poeta neo-romântico lusitanista [no contexto do saudosismo integralista], próximo de Afonso Lopes Vieira e aclamado por António Sardinha, José Bruges d’Oliveira colaborou com inúmeras revistas e jornais; viveu no Canadá, nos EUA e em França e, no dia 24 de abril de 1952, suicidou-se em Tânger, onde exercia funções consulares.



«A mim, lá no fim, além,
No tempo em que o meu cabelo
Era o recreio, o anelo
Dos dedos da minha Mãe.»

«Memorial» [Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1950, p. 11]. Fotografia: José Bruges d'Oliveira — Tânger, 19 de abril de 1952 [cinco dias antes do suicídio].

2014-10-08

«Embriões» | 1895

«O primeiro livro que Pascoaes publicou foi «Embriões» e teve um grande trabalho para o fazer desaparecer. Os exemplares que havia lá em casa queimou-os todos. O Guerra Junqueiro, a quem o meu pai o tinha mandado, disse-lhe: "diz a teu filho que se deixe de versos"» [Maria da Glória Teixeira de Vasconcelos, «Olhando para trás vejo Pascoaes». Lisboa, Livraria Portugália, 1971, p. 35].



Henrique Manuel Pereira contextualiza esta questão em «Guerra Junqueiro — Teixeira de Pascoaes: Para um mapa da amizade», in «Humanística e Teologia», Ano 20 [fascículo 1, 1999], pp. 125-144.

2014-10-06

Guilherme de Faria | 1907-1929



Creio que foi em 2003 que conheci o poeta Guilherme de Faria. Só passados três anos comecei a estudar a sua vida e obra de um modo sistemático. Em 2007 organizei a celebração do centenário do seu nascimento, reeditei a antologia «Saudade Minha (poesias escolhidas)» [Cosmorama Edições] e inscrevi-me no doutoramento em Literatura na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sob orientação da Prof.ª Doutora Maria João Reynaud, na condição de bolseiro da FCT.
Desde então, pronunciei inúmeras conferências sobre Guilherme de Faria e recuperei uma parte significativa do seu espólio literário. Em 2012 apresentei o site www.guilhermedefaria.com e defendi a dissertação de doutoramento: «Vida e Obra de Guilherme de Faria — Os versos de luz por escrever», que publiquei em 2013, juntamente com a reedição de «Saudade Minha (poesias escolhidas)» no primeiro volume d'«O Livro de Guilherme de Faria». Neste momento preparo a edição do segundo volume e continuo a identificar e catalogar o espólio.

Guilherme de Faria nasceu há 107 anos, no dia 6 de outubro de 1907, em Guimarães.
Publicou sete livros de poesia: «Poemas» e «Mais Poemas» [1922], «Sombra» [1924], «Saudade Minha» [1926], «Destino» e «Manhã de Nevoeiro» [1927] e, editado postumamente, «Desencanto» [1929]; também póstuma, mas organizada de acordo com as suas indicações, foi a edição da antologia «Saudade Minha (poesias escolhidas)» [1929]. Publicou ainda «Oração a Santo António de Lisboa» [1926] e organizou uma «Antologia de Poesias Religiosas» [que só seria publicada em 1947].
Guilherme de Faria foi poeta e editor, correspondeu-se e relacionou-se com os mais importantes poetas e artistas portugueses do seu tempo. Suicidou-se na Boca do Inferno [Cascais], no dia 4 de janeiro de 1929.
A sua poesia compreende-se no contexto do Neorromantismo lusitanista e do Saudosismo integralista, e habita o âmago da tradição lírica portuguesa. Poeta de um passadismo noturno, elegíaco e doce que só se realiza em diálogo com a morte redentora, Guilherme de Faria acabou por ser esquecido, devido à sua morte tão prematura, às especificidades quase anacrónicas da sua poesia e à proximidade ideológica ao Integralismo Lusitano.