2014-10-22

Alexandre de Córdova

Alexandre de Córdova [Alexandre Francisco Ferreira] nasceu em Santo Tirso a 11 de novembro de 1896. Estudou Direito nas Universidades de Coimbra e de Lisboa. Ilustre advogado da Comarca do Porto, era possuidor de uma notável oratória. Destacou-se ainda como poeta. Morreu em 1969.

No final da década de 20 publicou «Rosas de Malherbe», livro dedicado a Teixeira de Pascoaes [1877-1952], com uma carta-prefácio de Júlio Brandão [1869-1947]. O que significa a expressão «Rosas de Malherbe»? Diz-se de algo efémero, que tem «a duração da rosa de Malherbe». A locução tem origem numa poesia do poeta francês François Malherbe [1555-1628], na qual se lê:

«Mais elle était du monde où les plus belles choses
Ont le pire destin;
Et rose elle a vécu ce que vivent les roses,
L'espace dun matin.»

[«Mas era ela do mundo onde as mais belas coisas
Têm o pior destino;
E rosa ela viveu o que vivem as rosas,
Uma breve manhã.»]

Conheço três livros de Alexandre de Córdova:




«Magnólia — Rimas d’Amor e de Primavera». 1.ª edição, 1920. Poesia. Gaia, Tipografia 5 de Outubro [Rua Cabo Borges, 177]. Depósito: Livraria Chardron de Lello & Irmão [Rua dos Carmelitas, 144 – Porto]. Fotografia com um busto de Alexandre de Córdova: escultura de Maurício d’Almeida.

«Rosas de Malherbe». 1.ª edição, s.d. [1928?]. Poesia. Porto, Emp. Industrial Gráfica do Porto [Rua dos Mártires da Liberdade, 178]. Depositária: Livraria Fernando Machado & C.ª [Rua dos Carmelitas, 15 – Porto]. Carta-prefácio de Júlio Brandão.

«Primavera Voluptuosa». 1.ª edição, 1953. Poesia. Porto, Editora Educação Nacional. Retrato do autor da autoria de Tomaz Pelayo. Capa da autoria de Joaquim Lopes. Nota final: «Este livro foi composto e impresso na Tipografia  Santarém, da minha florida terra de Santo Tirso, em janeiro do ano de 1953, e cuja preparação foi anunciada há já vários anos, não é o mesmo de então. Dele ficou o título, a sua estrutura e muitas das composições poéticas desses dias idos; e o autor foi compondo, ao longo da vida, outras poesias que fazem parte do presente volume. A demora da sua publicação deve-se a diversos factores que ao leitor em nada interessarão. Mas mais vale tarde do que nunca. Venha este livro, ao menos, a tempo de demonstrar que o autor ainda não deixou enferrujar as cordas da sua, porventura, desafinada lira.»

2014-10-20

Colóquio / Letras 187



Só hoje me chegou às mãos o número 187 da COLÓQUIO Letras [set./dez. 2014]. Neste número, com um dossiê dedicado a Agustina Bessa-Luís, o mestre Fernando Guimarães publica uma recensão crítica à edição da minha dissertação de doutoramento: «Os versos de luz por escrever — Vida e Obra de Guilherme de Faria» [Cosmorama Edições, 2013], nas páginas 274 e 275. O mesmo Fernando Guimarães, entre as páginas 239 e 241, apresenta uma recensão crítica de «Alvídrio», de Jorge Melícias [Cosmorama Edições, 2014].

2014-10-17

Biblioteca

Julio Ramón Ribeyro escreveu: «A biblioteca pessoal é um anacronismo. Ocupa demasiado espaço em casas cada vez mais pequenas, fica cara e nunca é realmente aproveitada, tendo em conta o seu custo ou dimensão. Um livro lido, bem vistas as coisas, não está já no nosso espírito, sem ocupar espaço? Para quê conservá-lo, então? E por acaso não abundam, atualmente, as bibliotecas públicas, nas quais podemos encontrar não só aquilo que queremos, mas mais do que queremos? A biblioteca pessoal responde a necessidades de tempos idos: quando se vivia num castelo ou num solar, que por estarem longe do mundo obrigavam a que se tivesse o mundo à mão, encadernado; quando os livros eram raros e muitas vezes únicos e era imperioso possuir o cobiçado incunábulo; quando as ciências e as artes evoluíam com menos rapidez e o conteúdo dos livros podia manter-se válido por várias gerações; quando a família era mais estável e sedentária, e a biblioteca podia transmitir-se numa mesma morada e divisão e nos mesmos armários sem perigo de dispersão. Estas circunstâncias já não se verificam. E, no entanto, há loucos que querem ter todos os livros do mundo. Porque são demasiado preguiçosos para ir às bibliotecas públicas; porque acham que basta olhar para a lombada de uma coleção para pensar que já a leram, porque se tem vocação de coveiro e se gosta de estar rodeado de mortos; porque nos atrai o objeto em si, à margem do seu conteúdo, o cheiro, o tato. Porque uma pessoa acredita, contra toda a evidência, que o livro é uma garantia de imortalidade e que formar uma biblioteca é como edificar um panteão no qual se gostaria de ter reservado o seu próprio nicho» [«Prosas Apátridas», Porto, Edições Ahab, 2011, pp. 113-114].



Gostaria de desconstruir e contradizer estes argumentos. Eu que sou «aprendiz de bibliófilo», um desses loucos que, se não quer ter todos os livros do mundo nas estantes da sua biblioteca pessoal, não se importa de ter aí arrumados alguns deles. Não, não sou demasiado preguiçoso para ir às bibliotecas públicas. E não, não creio que exista a pretensão de edificar um panteão. Talvez o problema seja a minha «vocação de coveiro», essa desoladora tendência para interagir com os mortos. Sim... tenho regressado à minha biblioteca por estes dias, com a consciência de que é um bom sítio para ir morrendo até que a morte venha.

Vieira da Silva | «Biblioteca», 1949 ... a escutar «My Heart's in the Highlands», de Arvo Pärt [«Creator Spiritus», 2012].

2014-10-15

Roma

Chove em Roma.
Por todo o lado a perturbadora consciência de que a beleza de uma cidade reside na relação simbiótica entre habitá-la e permitir que ela nos habite. Por todo o lado a perturbadora consciência da distância a que nos situamos de todas as coisas, a promessa ingénua de que aqui seria feliz, como se pudesse de facto ser feliz ou como se a felicidade não fosse uma promessa tão efémera quanto o corpo de uma mulher, o sabor do café no fim da boca, o calor da chávena nas mãos. Sinto que aqui seria feliz porque me sinto habitado e ainda assim, em cada estância, antecipo o regresso.

Continua a chover em Roma.
Interessam-me fundamentalmente duas coisas numa cidade: as perspectivas e os pormenores. Por vezes, aborrece-me tudo o que existe entre as perspectivas e os pormenores. Detenho-me sobre a Ponte de Sant'Angelo. Integro no meu campo de visão o Castelo [à direita] e a Basílica de S. Pedro [ao fundo], a extraordinária cúpula que Michelangelo concebeu. É uma perspetiva. Seria lamentável ter morrido sem tê-la integrado na construção da minha identidade. Depois mergulho no emaranhado de ruas, pela Via dei Coronari até à Fontana dei Quattro Fiumi, na Piazza Navona. Faço a sinestésica experiência do ocre que inunda Roma, os tons baços, entre um amarelo antigo e um vermelho esbatido, como se a cidade conservasse uma existência de terracota, de terra calcada, de pedra ferida. É outra perspetiva. Depois há os pormenores: o elefante de Bernini ou o túmulo de Fra Angelico em Santa Maria sopra Minerva, a tensão entre Bernini e Borromini na Piazza Navona, o Pasquino ou uma mulher que atravessa o Campo de Fiori com o poder de incendiar um coração. Perspetiva e pormenor. A Fontana di Trevi ou o melhor café do mundo: um grancaffé zuccherato no Sant'Eustachio.
Pergunto se haverá em Roma tantos discípulos de Cristo quantas igrejas. Entretanto, morreu Ivan Iliitch, mas em Roma não se lê Tolstói. Em Roma aprende-se o tom ocre dos dias, um tão mediterrânico elogio da vida, por dentro de uma tão intensa cumplicidade com os sulcos da morte.

Roma acordou soalheira, o que intensifica os tons ocres da cidade. Detenho-me uns minutos diante da Fontana dei Quattro Fiumi, antes de um grancaffé zuccherato no Sant' Eustachio. Passei a manhã no Museu do Vaticano, em passo acelerado… porque em Roma o tempo é um bem excessivamente valioso para ser desperdiçado dentro de um museu. Sim, prefiro as ruas aos museus. Os museus estão para as obras de arte como os jardins zoológicos para os animais. No fundo, aborrece-me o modo como a tentação cosmética da compartimentarização condiciona a nossa liberdade: os infantários e as escolas tornaram-se depósitos de crianças, os lares de terceira idade depósitos de velhos, há bairros que são depósitos de ricos e bairros que são depósitos de pobres, e os museus são depósitos [arrumados, mas muitas vezes descontextualizados] de obras de arte. Tudo isto para justificar o meu passo acelerado. Ainda assim comovi-me com a coleção de pintura gótica, com um ou outro ícone bizantino, com um sarcófago paleocristão ou com a Pietà de Vincent van Gogh. E no fim de trajetos sinuosos, depois da Scuola di Atene de Raffaello, entra-se na Cappella Sistina. Já está tudo dito sobre a Cappella Sistina. Por momentos não me importam os enredos histórico-culturais, nem os contextos eclesiais. Interessam-me as cores, os diálogos, as idiossincrasias que transformaram aquele espaço numa caixa-de-ressonância para o meu imaginário. Sinto que a minha existência seria irremediavelmente mais pobre sem Perugino, Botticelli e Michelangelo. Não sei em que abismos de luz perdura a identidade espiritual de Michelangelo, mas ali, diante do Juízo Final, agradeci silenciosa e comovidamente a sua existência.



Depois do Museu do Vaticano, a Basílica de S. Pedro. Ainda não tenho palavras que exprimam o que se sente num lugar como aquele. Outra vez Michelangelo, na formosíssima Pietà, a memória de Palestrina, o baldaquino de Bernini, as dimensões verdadeiramente impressivas da Basílica, de cada estátua, de cada ornamento. Penso na impudência e no destempero, na megalomania dos 'príncipes da Igreja' que legitimaram tudo aquilo em nome de Jesus de Nazaré, em memória de Pedro, o pescador de Betsaida, que viveu em Cafarnaum e pescou no Mar da Galileia. É uma perturbadora contradição: aquela Basílica — e tudo aquilo que ela representa e tudo aquilo que a envolve — é uma poderosa e perversa subversão do Evangelho.
Depois, caminhando pela Via dei Coronari, pensei que a própria teologia é tantas vezes o meio de legitimação dos processos eclesiais de subversão do Evangelho. E depois silenciei-me com mais um grancaffé zuccherato no Sant' Eustachio. E depois silenciei os murmúrios persistentes com o melhor gelado do mundo, na Giolitti. E depois a cidade: a Isola Tiberina, Andrea Pozzo na Igreja de Sant'Ignazio di Loyola, Caravaggio na Igreja de San Luigi dei Francesi e na Igreja de Sant'Agostino, a Chiesa del Gesù, a Piazza Venezia e a Piazza del Campidoglio, e o Foro Romano... os arcos de Septímio Severo, de Tito e de Constantino, junto ao Coliseu. A avassaladora densidade do tempo e do espaço. O que somos não chegará a ser ruínas. E aquelas ruínas, de uma beleza comovente, negam assertivamente o epíteto de Roma: Città Eterna. Nascida no sangue de Remo na espada de Rómulo, Roma é a mais eloquente expressão da glória que nos é prometida na juventude e que só experimentamos verdadeiramente se ingenuamente esquecermos que o resto da nossa vida será um impiedoso envelhecimento que nos conduzirá inexoravelmente à morte.

Último dia em Roma: o Êxtase de Santa Teresa na Igreja de Santa Maria della Vittoria, Santa Susanna de Carlo Maderno, San Carlo alle Quattro Fontane de Borromini. Nas páginas do meu moleskine, um emaranhado de anotações: datas, nomes de escultores, arquitetos e pintores, referências a obras de arte e lugares, ruas e praças, itinerários e curiosidades da história da cultura e da arte. Sigo pela Via delle Quattro Fontane até à Basílica de Santa Maria Maggiore, depois a Basílica de San Giovanni in Laterano e, finalmente, a Basílica de San Paolo Fuori le Mura. E ainda Caravaggio na Igreja de Santa Maria del Popolo, a Piazza di Spagna e o regresso às ruas estreitas. Em Roma, a sofisticação convive com uma certa desarrumação orgânica, entre canteiros de flores e carros mal estacionados, terrazze e piazze, e tudo aquilo que vejo e não digo, porque não há tempo para encontrar as palavras.

Sim, em Roma lê-se Tolstói. O próprio Ivan Iliitch explicou-me que por vezes vivemos uma vida que consideramos adequada às nossas expectativas sociais, na definição e defesa mais ou menos obstinada de um status quo. Explicou-me que, enquanto vivemos essa vida, estamos mortos. Creio que já o sabia, mas é importante repeti-lo, tantas vezes quantas forem necessárias para consciencializá-lo e integrá-lo no quotidiano, porque a vida concreta de todos os dias não é menos comovente ou impressiva do que Michelangelo, Caravaggio, Bernini ou Pozzo. | Roma, janeiro de 2012

2014-10-13

«Céu em Fogo»



1.ª edição, 1915 [oito novelas].
Lisboa, Livraria Brasileira — Monteiro & Comp.ª [Rua Áurea]. "Acabou de se imprimir este volume do «Céu em Fogo» aos 28 de Abril de 1915, nos prelos da Tipografia do Comércio, 10, Rua da Oliveira, ao Carmo, Lisboa. A fotogravura da capa foi executada nos ateliers de A Ilustradora, 17, Largo do Carmo, Lisboa."
Capa de José Pacheco [1885-1934].

Este exemplar pertenceu a Alberto Telles-Machado, que o assinou em 1918. Creio que se trata de Utra Machado, amigo de Fernando Pessoa.



Fernando Pessoa e Utra Machado, na Rua Augusta [Lisboa]. Cf. Maria José de Lencastre, «Fernando Pessoa — Uma Fotobiografia», Lisboa, Imprensa Nacional — Casa da Moeda / Centro de Estudos Pessoanos, 1986, p. 341.

2014-10-10

José Bruges d'Oliveira

Durante muitos anos procurei elementos para uma contextualização histórico-literária da vida e obra de José Bruges d'Oliveira. Apesar das dificuldades, consegui finalmente descobrir um conjunto de documentos que me permitirão restituir este poeta à História da Literatura Portuguesa.
José Bruges d’Oliveira nasceu em Lisboa, no dia 6 de julho de 1899. Estudou Direito em Coimbra. Entre os livros que publicou, destacam-se: «Da Terra e do Mar» [1917], «As minhas Cantigas» [1918], «Missal do Amor» [1919, com o pseudónimo de José Lupi de Mena], «Versos Fúteis» [1920], «Ophir» [1921], «Canções do Longe e do Perto» [1922] e «Baladas ao Vento» [1929]. Em 1950 reúne em «Memorial» poemas escritos entre 1930 e 1945.
Poeta neo-romântico lusitanista [no contexto do saudosismo integralista], próximo de Afonso Lopes Vieira e aclamado por António Sardinha, José Bruges d’Oliveira colaborou com inúmeras revistas e jornais; viveu no Canadá, nos EUA e em França e, no dia 24 de abril de 1952, suicidou-se em Tânger, onde exercia funções consulares.



«A mim, lá no fim, além,
No tempo em que o meu cabelo
Era o recreio, o anelo
Dos dedos da minha Mãe.»

«Memorial» [Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1950, p. 11]. Fotografia: José Bruges d'Oliveira — Tânger, 19 de abril de 1952 [cinco dias antes do suicídio].

2014-10-08

«Embriões»

«O primeiro livro que Pascoaes publicou foi «Embriões» e teve um grande trabalho para o fazer desaparecer. Os exemplares que havia lá em casa queimou-os todos. O Guerra Junqueiro, a quem o meu pai o tinha mandado, disse-lhe: "diz a teu filho que se deixe de versos"» [Maria da Glória Teixeira de Vasconcelos, «Olhando para trás vejo Pascoaes». Lisboa, Livraria Portugália, 1971, p. 35].



Henrique Manuel Pereira contextualiza esta questão em «Guerra Junqueiro — Teixeira de Pascoaes: Para um mapa da amizade», in «Humanística e Teologia», Ano 20 [fascículo 1, 1999], pp. 125-144.

2014-10-06

Guilherme de Faria



Creio que foi em 2003 que conheci o poeta Guilherme de Faria. Só passados três anos comecei a estudar a sua vida e obra de um modo sistemático. Em 2007 organizei a celebração do centenário do seu nascimento, reeditei a antologia «Saudade Minha (poesias escolhidas)» [Cosmorama Edições] e inscrevi-me no doutoramento em Literatura na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sob orientação da Prof.ª Doutora Maria João Reynaud, na condição de bolseiro da FCT.
Desde então, pronunciei inúmeras conferências sobre Guilherme de Faria e recuperei uma parte significativa do seu espólio literário. Em 2012 apresentei o site www.guilhermedefaria.com e defendi a dissertação de doutoramento: «Vida e Obra de Guilherme de Faria — Os versos de luz por escrever», que publiquei em 2013, juntamente com a reedição de «Saudade Minha (poesias escolhidas)» no primeiro volume d'«O Livro de Guilherme de Faria». Neste momento preparo a edição do segundo volume e continuo a identificar e catalogar o espólio.

Guilherme de Faria nasceu há 107 anos, no dia 6 de outubro de 1907, em Guimarães.
Publicou sete livros de poesia: «Poemas» e «Mais Poemas» [1922], «Sombra» [1924], «Saudade Minha» [1926], «Destino» e «Manhã de Nevoeiro» [1927] e, editado postumamente, «Desencanto» [1929]; também póstuma, mas organizada de acordo com as suas indicações, foi a edição da antologia «Saudade Minha (poesias escolhidas)» [1929]. Publicou ainda «Oração a Santo António de Lisboa» [1926] e organizou uma «Antologia de Poesias Religiosas» [que só seria publicada em 1947].
Guilherme de Faria foi poeta e editor, correspondeu-se e relacionou-se com os mais importantes poetas e artistas portugueses do seu tempo. Suicidou-se na Boca do Inferno [Cascais], no dia 4 de janeiro de 1929.
A sua poesia compreende-se no contexto do Neorromantismo lusitanista e do Saudosismo integralista, e habita o âmago da tradição lírica portuguesa. Poeta de um passadismo noturno, elegíaco e doce que só se realiza em diálogo com a morte redentora, Guilherme de Faria acabou por ser esquecido, devido à sua morte tão prematura, às especificidades quase anacrónicas da sua poesia e à proximidade ideológica ao Integralismo Lusitano.

2014-10-03

«A Invenção do Dia Claro»

Há livros difíceis de descrever, seja pela sua história, pelo autor, pelo conteúdo ou pelo objeto em si... seja ainda por um certo valor idiossincrático que o leitor lhe empresta. «A Invenção do Dia Claro», de Almada Negreiros, é um desses livros, editado por Fernando Pessoa em 1921, com a chancela da Olisipo.

«Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido» [p. 11]. [...] «Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa — salvar a humanidade» [p.13].



Almada Negreiros [1893-1970] foi o mais multidisciplinar artista português: pintor, poeta, ensaísta, dramaturgo, romancista... Excêntrico, polémico, genial, Almada Negreiros foi uma das principais figuras do movimento modernista; colaborou nas revistas «Orpheu» [1915] e «Portugal Futurista» [1917], e foi autor de uma notável obra artística e literária.

2014-10-01

Cemitério do Père-Lachaise

Cheguei ao Cemitério do Père-Lachaise: uma cidade construída para os mortos dentro da cidade dos vivos, mas bem delimitada, não tanto pelos imponentes muros, mas fundamentalmente pela consciência de que este é um domínio que os vivos não cobiçam. Aqui percebe-se que honramos os mortos com monumentos fúnebres com a pretensão de prender a memória por meio dessa atadura abstracta que é um epitáfio ou um nome inscrito na pedra, ou a vacuidade de expressões como «morada perpétua».
É estranho: os monumentos fúnebres são os instrumentos com que esquecemos os mortos, edificamos-lhes memoriais em pedra para que possamos esquecê-los sem que nos sintamos culpados... e para que eles se esqueçam de nós. Mas nem nós os lembramos, nem a morte nos esquece. É aterrador: aqui, no meio de tantos memoriais, só há esquecimento. Na verdade, os corpos já se decompuseram, os túmulos estão em ruínas e um dia não restará memória do Cemitério do Père-Lachaise e não haverá quem lembre a beleza de Paris ou a glória da França. C'est la vie! La réalité sans espoir...
E neste silêncio grave, consigo escutar o rumor da morte.
Só há turistas e mortos no Cemitério do Père-Lachaise. Os turistas passeiam pelo cemitério com a mesma displicência com que percorrem os corredores do Louvre. Buscam a sepultura de uma qualquer celebridade com a mesma gula ingénua com que procuram a Gioconda. Têm mais olhos que barriga.
Eu também passei pela sepultura de Balzac e de Proust, mas vim ao Père-Lachaise com um propósito bem definido. Li recentemente as memórias de Paris de Diogo de Macedo — «14 Cité Falguière» —, onde me apaixonei pela pessoa de Amedeo Modigliani [há muito me havia apaixonado pelo pintor...]. Queria sentar-me junto à sua sepultura, onde também se encontra o corpo de Jeanne Hébuterne. Na verdade, foi por causa de Jeanne que vim ao Cemitério do Père-Lachaise.
Amedeo morreu no dia 24 de janeiro de 1920 [vítima de tuberculose e de uma dessas vidas de que se morre antes que o tempo traga a morte]; no dia seguinte, Jeanne [com uma filha com pouco mais de um ano e grávida de oito meses] põe fim à sua vida [vítima de uma dessas mortes de que se vive antes que o tempo traga a vida]. Só passados nove anos o seu corpo [cujo útero se converteu num sombrio e solene ataúde] se juntou ao de Amedeo.



Aqui sentado, junto a flores mortas, tristes como melopeias sobre o granito, disse-lhe algo que não me atrevo a escrever. Começou a chover. Não tenho um cigarro que possa fumar. Um corvo hierático e lúgubre pousou numa sepultura próxima. Podia ser um pássaro azul, onírico, de esplêndidas asas metafísicas… mas é apenas um corvo, negro como são os corvos. Está na hora de regressar ao mundo dos vivos. Talvez não volte à sepultura de Amedeo e de Jeanne. Há coisas que só se dizem uma vez, confissões que não podem ser repetidas. | Paris, 22 de maio de 2014