2012-01-27

Ontem, o concerto dos The Gift [na Casa da Música] foi incrível... A Primavera na primeira parte, Explode na segunda e a Sónia Tavares [muito] grávida.

No outro dia, falava com o Henrique sobre a música que escolheríamos para as nossas exéquias [conversas estranhas...]. Pensei no 'Introitus' do Requiem de Mozart: "Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis." Outra hipótese seria Fix you dos Coldplay...



Actualizei o blog do Guilherme de Faria. Memória do princípio...

2012-01-26

Esta semana foi [está a ser...] muito intensa.
Ainda em relação às provas de doutoramento: obrigado!... muito obrigado a todos os amigos que partilharam a alegria deste acontecimento, deste processo de 'ressuscitar' Guilherme de Faria, de restitui-lo à história da literatura, à história da cultura portuguesa. Visitem e divulguem o site: www.guilhermedefaria.com, um trabalho notável do Bruno Santos.

No domingo, a comunidade da Capela de Fradelos ofereceu-me uma caneta Montblanc, o belíssimo modelo Meisterstück Classique Fineliner. Obrigado...

2012-01-25

No dia 6 de Janeiro, no Auditório de Serralves, no contexto do colóquio Ver o invisível, dizer o indizível, moderei duas conversas: com Jaime Rocha e João Duque, Siza Vieira e Valter Hugo Mãe. Nesse dia, conheci pessoalmente Manoel de Oliveira... foi inesquecível. Deixo aqui a reportagem da Agência Ecclesia:

2012-01-24

Eis que termina um dia muito importante para o poeta Guilherme de Faria. Nas provas de doutoramento que decorreram na Faculdade de Letras da UP, fui aprovado com distinção por unanimidade e estou, naturalmente, muito feliz.
Já está on-line o site do poeta: www.guilhermedefaria.com. E o blog: www.guilhermedefaria.blogspot.com começa amanhã a funcionar normalmente.
Transcrevo aqui o texto de apresentação:

Gustavo Aimar



Quando me inscrevi num doutoramento em Literaturas e Culturas Românicas, estava consciente das dificuldades que à partida se colocariam, na medida em que me licenciei em Teologia e defendi em 2002, nesta mesma Faculdade, a dissertação de mestrado em Filosofia Medieval. Ainda assim, o meu objectivo prendia-se fundamentalmente com a narrativa da vida do poeta Guilherme de Faria e com uma leitura hermenêutica da sua poesia. Desse modo, estas páginas que aqui, hoje, se discutem, têm um contexto e um pretexto académico, mas nascem do desejo de escrever a biografia de um poeta e desocultar a sua obra, durante 80 anos praticamente esquecida.
Apesar da inscrição em doutoramento datar de Outubro de 2007, este trabalho começou em 2006. Durante estes seis anos, Guilherme de Faria tornou-se íntimo da minha vida, do meu quotidiano, da minha casa, da minha família, até dos meus amigos… No que diz respeito aos meus dias: nada parou, ou sequer abrandou, para que a vida e obra de Guilherme de Faria se desvelassem nesta dissertação de doutoramento; nada parou, ou sequer abrandou… o conteúdo destas páginas coexistiu com a minha actividade profissional, com uma série de projectos, com todo o património [material e imaterial] de que são feitas as nossas vidas. Ao folhear estas páginas, recordo o silêncio da minha biblioteca nessas horas nocturnas em que se conquista a intimidade de um poeta, recordo as viagens, uma certa solidão que não se explica, cada documento descoberto e manuseado… como se de tesouros se tratasse ou apenas de oportunidades de redenção; lembro os amigos que [directa e indirectamente] participaram neste projecto de, poeticamente, ressuscitar um poeta.
Numa carta que Luís Amaro me escreveu recentemente, lê-se que "raramente um Poeta foi alvo de tamanha dedicação amorável!" Talvez tenha sido esse o principal objectivo desta dissertação: "dedicação amorável". Mas no contexto da obtenção de um grau académico, num texto de apresentação, cabe-me dizer algumas palavras sobre o conteúdo deste trabalho.

Na primeira parte desta dissertação, procurei apresentar uma narrativa biográfica desse rapaz raro, que nasceu em 1907, em Guimarães, tão perto desse castelo que é, simbolicamente, o berço de Portugal. A sua infância coincide com o regicídio, com a proclamação da República e com o Sidonismo. De resto, o assassinato de Sidónio Pais, no final de 1918, e a partida de Guilherme de Faria para Lisboa, em 1919, determinam, simbolicamente, o fim da infância do poeta.
A sua família ocupa uma casa na rua da Horta Seca, entre o Chiado e o Bairro Alto. Por isso, Guilherme de Faria foi um poeta que, em Lisboa, nos anos 20, se situou sociologicamente, culturalmente, entre o Chiado e o Bairro Alto. No seu imaginário poético persistia uma separação dualista e intranquila entre o passado idílico, mitificado da sua infância, e um presente em que a cidade, com as suas luzes e miasmas, impunha uma realidade que o poeta recusava aceitar com a intensidade dramática de quem se rejeita a si próprio. E ainda assim, encontramos Guilherme nas encruzilhadas da cidade, nos cafés, entre poetas e amigos… um rapaz comunicativo, activo, criativo; o mesmo rapaz que no silêncio que se abate, crepuscular e outoniço, sobre as suas páginas íntimas, dialoga com a morte, como se a morte fosse a amante e as páginas fossem o tálamo, esse ataúde em que adormeceram tantos dos poetas que Guilherme amou.
E assim passaram os anos: as ilusões foram sempre mais efémeras do que as decepções, o reconhecimento da sua poesia foi sempre obscurecido pela inadaptação para a vida real, que era tão excessivamente real para um poeta tão poeta. A existência concreta constituía, à partida, um desafio conceptual, porque o seu problema nunca foi o que quis ser – Guilherme de Faria quis ser tanto, quis ser tudo… –, o seu problema foi fundamentalmente o que não quis ser, como se lê na sua «Confissão», poema de 1924: "quero viver, quero ser tudo,/ Só não quero ser o que sou!"
Hoje não importa tanto descrever Guilherme de Faria como bipolar ou mesmo neurasténico, mas sublinhar o impressivo sentido humano da sua vida, tão comoventemente manuscrito em centenas de papéis que – por esse amor que o acaso tem aos poetas – pude folhear como se por mim próprio tivessem sido manuscritos ou como se nada fosse por acaso.
E esse rapaz tão raro, amigo de poetas e artistas, que dedicou à poesia e aos livros mais vida do que normalmente pode a vida, no dia 4 de Janeiro de 1929, há 83 anos, desceu a rua do Alecrim e apanhou o comboio para Cascais na Estação Ferroviária do Cais do Sodré. Escreveu dois bilhetes-postais que endereçou ao irmão José; colocou-os no correio e seguiu, junto ao mar, até à Cidadela e depois pela Estrada da Boca do Inferno. Foi um caminho sem retorno. Descalço e com um terço de rezar ao pescoço, com apenas 21 anos de idade, Guilherme de Faria precipitou-se no mar. As fragas, a água fria e a violência das vagas reclamaram o seu corpo.
Como mais tarde escreveu Alfredo Pimenta, Guilherme de Faria foi "o último Poeta português, que aos 21 anos se deixou enfeitiçar pelo marulho das ondas e no seio destas se foi cantar a sua última estrofe."

No que diz respeito à sua poesia, procurei na segunda parte desta dissertação uma leitura hermenêutica, que fundamentalmente a contextualizasse numa perspectiva histórico-cultural e literária. Podemos situar cronologicamente a sua poesia entre 1920 – existem poemas inéditos, em manuscritos autógrafos, datados de 1920 – e 1928. Numa primeira fase, até Mais Poemas [de 1922], Guilherme de Faria é um jovem poeta muito influenciado por Antero de Quental e, sobretudo, por António Nobre, e exprime-se preferencialmente em sonetos. É em Poemas, o seu primeiro livro [também de 1922], que encontramos estas palavras: "E o Mar/ Anda a rezar/ Os meus versos de luz que ainda estão por escrever…"
Em 1924, Guilherme de Faria continua a ser um jovem poeta – nunca deixou de ser um jovem poeta… –, mas a edição de Sombra representa uma mudança. Não se trata apenas do expectável amadurecimento de um poeta com 15 anos, mas de um processo que se estenderá até à edição de Saudade Minha [em 1926] e que representa a construção de uma identidade poética: Guilherme de Faria, entre o aparecimento de tantos auspiciosos jovens autores e a maturidade literária de alguns dos mais notáveis poetas portugueses, torna-se talvez o mais quinhentista dos poetas neo-românticos lusitanistas, autor de poemas que nos lembram os Cancioneiros, num diálogo progressivamente mais íntimo com a morte, criando uma certa distância indefinida em relação à realidade, como se desistisse… como se que aquilo que era ontologicamente fosse incompatível e irreconciliável com a sua existência.
Em redondilha maior ou menor, os seus versos aproximam-se muitas vezes da mundividência de poetas como Afonso Lopes Vieira, António Correia d’Oliveira ou Mário Beirão; esporadicamente apropriam-se de questiúnculas integralistas; quase sempre conservam um rumor idiossincrático que lhes empresta uma limpidez e uma dolência muito próprias.

Guilherme de Faria tem, à partida, um conjunto de circunstâncias que condicionam profundamente a afirmação da sua singularidade, seja por se tratar de um poeta que morreu com apenas 21 anos – idade em que a generalidade dos mais reconhecidos poetas nem sequer estabeleceu o universo conceptual para um modelo de criação poética –, seja por se encontrar excessivamente contextualizado nos buliçosos anos 20, período de definições e redefinições, de complexas continuidades e descontinuidades, em que se movem saudosistas e futuristas, entre a Seara Nova de Raul Proença e a 2.ª Série da Nação Portuguesa de António Sardinha.
Parece-me determinante o seu contexto familiar e a mudança de Guimarães para Lisboa, naquilo que profundamente representa cada um dos espaços na construção de um imaginário nacional, na bipolaridade cidade/campo e na perspectiva idiossincrática de um poeta que, por um lado, potencia o volksgeist na sua expressão neo-romântica e integralista; e, por outro, assume a sua partida para Lisboa como um desterro, que o distancia dos loca sancta da sua infância. Este enquadramento biográfico possibilita uma personalidade poética rara, nimbada por uma certa dramaticidade, a que juntamos os contactos, as relações no meio literário e as circunstâncias que condicionaram o suicídio e que acabaram por redimensionar as implicações da sua precocidade.
Mas ainda não é isto que distingue Guilherme de Faria como poeta. Estamos na presença de um personagem complexo, profundamente idiossincrático, que estabeleceu, numa primeira fase [como referi], um diálogo perturbadoramente íntimo com Antero e, sobretudo, com António Nobre. Numa segunda fase, que discretamente assoma em Sombra [de 1924] e se afirma em Saudade Minha [de 1926], Guilherme de Faria desapega-se de um imaginário de artifícios simbolistas e assume-se claramente no enquadramento do Neo-Romantismo lusitanista. Entre meados de 1926 e o final de 1928, escreve três livros – Destino, Manhã de Nevoeiro e Desencanto – que se adequam exemplarmente à expressão poética do Neo-Romantismo lusitanista.
Com efeito, se há algumas características marcadamente neo-românticas lusitanistas que não encontramos explícitas na poesia de Guilherme de Faria, encontrá-las-emos nas suas cartas. Assim, se a nostalgia da paisagem rural é um elemento presente no epistolário, nos seus poemas encontramos revivescências mediévicas e renascentistas, como transposição revivalista e tentativa de reintegração da sua poesia na tradição literária que Guilherme de Faria considera genuinamente nacional; nas cartas e nos poemas, encontramos o devaneio melancólico, a evasão passadista, a recuperação fictícia dos estádios volvidos do tempo, as compensações da fantasia, o casticismo, o historicismo nacionalista; percebemos a opção pelo popularismo estético, a valorização da espontaneidade e autenticidade que Guilherme de Faria reconhece na poesia popular.
A poesia de Guilherme de Faria é ainda marcada pela presença obsessiva do amor, pela sublimação do amor esponsalício… que se desvela numa lírica sentimental, numa poética expressivista, entre a novela camiliana e a poesia de João de Deus, sob o impulso bucólico e quinhentista de Bernardim e o ascendente de António Nobre.
E, de certo modo, já é isto que distingue a poesia de Guilherme de Faria, mais do que a inspiração sebástica, mais do que a marca integralista, trata-se da construção de uma personalidade literária e de uma subjectividade expressa através de um lirismo nocturno, doce e elegíaco, que dialoga intimamente com a morte e que integra o amor e a saudade de um modo singular, seja pela intensidade idiossincrática, seja pela evidente qualidade da sua poesia.
Apesar de algumas composições denunciarem previsibilidade, alguma anuência com os estereótipos, ou algum compromisso de circunstância, creio que Guilherme de Faria consegue superar o seu contexto geracional, consegue de facto superar aquilo que seria expectável de um poeta tão jovem e tão situado ideologicamente, e constrói não só uma obra profundamente representativa do Neo-Romantismo lusitanista, mas também um personagem poético extraordinário, excessivo, passional, em que a vida e a obra são perturbadoramente coerentes, em que o desfecho trágico da sua vida é verdadeiramente consequente com os seus versos, mesmo com esses versos de luz que ainda estão por escrever.
Aí radica, na minha opinião, a singularidade de Guilherme de Faria, entre o poeta que foi e o poeta que nunca chegou a ser, entre a intensidade existencial da sua poesia e a projecção literária da sua existência, entre a adequação exemplar ao universo conceptual da expressão poética do Neo-Romantismo lusitanista e uma poesia que ocasionalmente transcende um modelo mais ou menos circunscrito de contextualização, entre a herança cultural e poética de uma nação – que, simbolicamente, também nasce em Guimarães e se esvaece no Atlântico – e uma elegia profundamente idiossincrática, melopeia em que assomam o amor, a morte e a saudade.
E se existe algum estranhamento no contacto com os poemas de Guilherme de Faria, esse estranhamento resulta de um certo efeito anacrónico e regressivo, simultaneamente evasivo e intimista, que revela um poeta ontologicamente ferido e saudoso de si mesmo; esse estranhamento resulta de uma expressão vagamente escatológica e neo-platónica, entre a saudade de Deus e a iminência da morte.

A edição póstuma de Saudade Minha (poesias escolhidas) [1929], uma antologia com cem poemas, representa o desejo do «poeta» sobreviver ao «homem»; é uma espécie de testamento preparado à sombra do suicídio, que o poeta ponderou intitular O Livro de Guilherme de Faria.

Imagino Guilherme de Faria: franzino, irrequieto, de grandes olhos negros a arder na face iluminada, saudoso dessa Vida que buscou na morte. Com a Saudade, por meio do suicídio, Guilherme não recupera apenas o passado como paraíso… inventa-o. Na verdade, foi isso que escreveu em versos de sombra, versos nocturnos… porque os versos de luz ainda estão por escrever.
Passados estes anos de contacto, por vezes dolorosamente íntimo, com a poesia, as cartas, os objectos pessoais de Guilherme de Faria, resta-me confessar que hoje, independentemente de qualquer coisa… sinto um alívio indescritível, uma certa descompressão… algo quase sacramental ou hierático, como se tivesse cumprido uma promessa ou terminado uma peregrinação.
Queria, finalmente, agradecer a todos quantos contribuíram, directa ou indirectamente, para esta Vida e Obra de Guilherme de Faria, particularmente à Sr.ª D. Teresa Leite de Faria, irmã do poeta [aqui presente], à Sr.ª Prof.ª Doutora Maria João Reynaud, orientadora desta dissertação, e à minha família, que tão generosamente acolheu Guilherme de Faria em nossa Casa. Muito obrigado.
Hoje, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pelas 15 horas, defendo a dissertação de doutoramento em Literaturas e Culturas Românicas: Os versos de luz por escrever: Vida e Obra de Guilherme de Faria.
O júri será composto pela Prof.ª Doutora Isabel Pires de Lima, pelo Prof. Doutor José Carlos Seabra Pereira e pelo Prof. Doutor António Cândido Franco [arguentes], pela Prof.ª Doutora Fátima Marinho, pela Prof.ª Doutora Maria João Reynaud [orientadora] e pela Prof.ª Doutora Zulmira Coelho Santos.

É um dia muito importante... para mim e para o Guilherme de Faria. Por isso, apresento o site: www.guilhermedefaria.com [desenhado pelo Bruno Santos], e o [novo] blog: www.guilhermedefaria.blogspot.com.

E mais não escrevo... porque não tenho tempo.

2012-01-21

Amanhã lerei esta reflexão na Capela de Fradelos...

Luta por uma alma [capitel de Saint-Benoît-sur-Loire]



A primeira leitura deste 3º domingo do Tempo Comum fala-nos de Jonas, em Nínive. Sempre me maravilharam as ilustrações de Jonas e do grande peixe nas Bíblias da minha infância, sem que me importasse as implicações exegéticas da narrativa. Hoje, esta leitura fala-nos dos apelos do profeta para que os habitantes de Nínive se arrependessem e se convertessem, ou Deus destruiria a descomunal cidade. Os habitantes de Nínive reagiram às palavras de Jonas e penitenciaram-se. E Deus também se arrependeu do mal com que os tinha ameaçado. O Antigo Testamento tem muitas narrativas como esta, independentemente do desfecho… Deus actua como um rei poderoso, que intervém na história, e que age de um modo muito humano, tão humano que também Deus se arrepende do mal com que tinha ameaçado Nínive. Estas narrativas antigas lembram-nos que sabemos pouco sobre Deus, mas conhecemos bem o Homem. Neste caso houve arrependimento e conversão, mas a consciência que prevalece, das histórias dos profetas e da nossa experiência de vida, é que a conversão, a mudança suscitada pelas virtudes morais, a escolha do bem… é uma conquista difícil, muito difícil. É mais difícil encaminhar do que desencaminhar. Alguém sugeriu que desejamos o bem, mas praticamos o mal. É o pecado… consiste em resistirmos ao bem e sermos permeáveis ao mal. Por isso li esta narrativa como um sinal de esperança: apesar de tudo, os habitantes de Nínive escutaram as palavras e Jonas e mudaram a sua conduta. Não é fácil… mas nunca nos disseram que seria fácil. O bem é uma conquista de todos os dias e a conversão uma atitude para toda a vida e para a vida toda.

Numa carta aos habitantes de Corinto, Paulo também apela à conversão, evocando a efemeridade do mundo, desafiando os cristãos de Corinto a um desapego em relação às coisas que têm como certas… É um tema pertinente nesta nossa tão entristecida pós-modernidade ou pré-qualquer-coisa que ainda não sabemos, ou pós-pós-modernidade… tão acelerados andam os nossos dias, as nossas vidas cheias de importância, compromissos, responsabilidades; vidas hiper-organizadas em hiper-organizers… informáticos, interactivos, tablets, iPads, iPhones, i-qualquer-coisa digna de uma sociedade hiper-tecnificada, um sociedade de entretenimento hiper-deslumbrada, hiper-anestesiada, hiper-hedonista, hiper-qualquer-coisa… onde tudo se compra e tudo se vende em hiper-mercados, esses lugares onde compramos tudo e onde até já vendemos a alma a um hiper-diabo qualquer, nem que seja um hiper-pobre-diabo. Mas S. Paulo lembra-nos que as coisas deste mundo são passageiras, são de passar… Lembro-me das palavras do P. António Vieira: "Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera". Tudo passa… enquanto o Homo Sapiens Sapiens parece evoluir para o iPitecantropo. "Efémera é a figura deste Século", diz S. Paulo. Disse-o há quase dois mil anos… mas eu escutei-o hoje.

No Evangelho de Marcos, escutámos Jesus a anunciar que o Reino dos Céus está próximo. Segue-se o chamamento dos primeiros discípulos. O que mais me impressiona nesta narrativa do Evangelho é uma certa descomplexificação da realidade da pessoa, enquanto contexto e enredo. Seria difícil imaginar esta narrativa do chamamento dos primeiros discípulos na tessitura do universo de um escritor existencialista, em que os personagens se enredam num novelo psico-dramático complexo, em que a escolha se assume um processo doloroso e angustiante. Aqui não… desconcerta-nos o modo simples do apelo: "Vem comigo!" Cristo não usa critérios ou estratégias de psicologia em recursos humanos, não organiza entrevistas [castings para apóstolos] nem pede referências pessoais ou profissionais em cartas de recomendação… Apenas: "Vem comigo!"
Simão e André e, logo a seguir, Tiago e João, filhos de Zebedeu. Jesus diz-lhes: "Vinde comigo!" E eles? Eles vão… seguem Jesus. O que faz um discípulo é a interacção que existe entre o chamamento e a resposta. E o Evangelho acentua o lado mais desarmante do chamamento e o lado mais desconcertante da liberdade com que estes homens seguem Jesus. É isso que se passa connosco? Não… Facilmente argumentaríamos: uma coisa é ser apóstolo, outra coisa é ser cristão. Ora aí está uma boa explicação para o que somos como cristãos, para o que é a Igreja… fundamentalmente é uma boa explicação para o que não somos como cristãos e para o que a Igreja não é. A apostolicidade é a condição que resulta da interacção que existe entre o chamamento e a resposta. E ser cristão implica necessariamente ser apóstolo… por isso importa saber o que somos… ou o que não somos.

2012-01-17

Falta só uma semana para as provas de doutoramento. Comprei um bonito fato preto... pareço o funcionário de uma agência funerária. Queria ler Ágape, agonia, de William Gaddis e terminar Adoecer, de Hélia Correia, um livro notável sobre Elizabeth Siddal, companheira de Dante Gabriel Rosseti e modelo de John Everett Millais em Ofélia [1851-52]:



Queria ler... mas ainda tenho exames de ECMC para corrigir e preciso de tempo e silêncio para preparar as provas de doutoramento. Já só falta uma semana...

2012-01-15

Este domingo li esta reflexão na Capela de Fradelos...

Cristo e S. Menas [séc. VI-VII]. Mosteiro de Bauit [Egipto]



O Tempo Comum permite que recuperemos o tempo, como experiência e como processo de salvação. Somos chamados a sobreviver ao modo como nos desgasta. Não se trata de uma opressão ou de um instante eivado de violência… É algo erosivo: o tempo transforma a vida em morte lenta e os cristãos procuram compreendê-lo, assumi-lo, integrá-lo na sua experiência pessoal e partilhá-lo como processo de ressurreição, processo lento e doloroso, íntimo da morte e íntimo da vida, como se a verdade da nossa condição dependesse de nos sentirmos por dentro do processo de ressurreição, enquanto vivemos na morte e enquanto morremos na vida.
Deus entra no tempo, que é como quem diz: Deus participa da nossa vida e da nossa morte, enquanto processos temporais; Deus participa da nossa ressurreição, mesmo quando a ressurreição se nos afigura um mistério tão insondável quanto a própria vida e a própria morte. Deus entra no tempo, como no sono de Samuel.
Inesquecível esta narrativa, em que o rapazinho escuta uma voz que o chama: "Samuel! Samuel!" E corre para o sacerdote Eli, dizendo: "Eis-me aqui!" Mas Eli não o chamara... Isto repete-se; Samuel pensa nova-mente que é Eli e o sacerdote diz-lhe como proceder se voltar a escutar essa voz que o chama. E quando Samuel ouve outra vez o seu nome, responde: "Fala, Senhor, que o teu servo escuta!"
Na verdade, hoje, parece-nos menos importante a mensagem propriamente dita… O essencial desta narrativa é, efectivamente, a atitude de Samuel: "Fala, Senhor, que o teu servo escuta!" Atitude de acolhimento, de escuta… Pressupõe silêncio. Mais: pressupõe que Samuel permita que o seu silêncio seja uma caixa de ressonância para a voz de Deus. E isto não é apenas poético… poderia realmente mudar a minha vida: "Fala, Senhor, que o teu servo escuta!"
Mas a porção do Evangelho que escutámos neste 2º domingo do Tempo Comum reserva-nos ainda um apelo extraordinário. Dois discípulos ouviram João que, vendo Jesus, disse: "Eis o Cordeiro de Deus!" Os dois discípulos, ao ouvir estas palavras, seguiram Jesus. Voltando-se e vendo que o seguiam, Jesus disse-lhes: "Que procurais?" Eles disseram: "Onde moras?" Ele disse-lhes: "Vinde ver!" Eles foram e viram onde ele morava, e ficaram com ele naquele dia.
Vejamos: há algo insólito nesta narrativa? Fundamentalmente, tudo! [1] O modo assertivo com que João identifica Jesus: "Eis o Cordeiro de Deus!" Trata-se de uma profissão de fé, uma afirmação de teor eminentemente teológico e, neste contexto, quase despropositadamente teológico. [2] Os dois discípulos de João escutam as suas palavras e seguem Jesus, o que reforça o carácter assertivo da profissão de fé e denuncia uma confiança de certo modo desconcertante. [3] Jesus, vendo que o seguiam, pergunta-lhes: "Que procurais?" No fundo, significa: "Que quereis?" Mas querer não é o mesmo que procurar… é mais gratuito e intuitivo procurar e podemos procurar o que ainda não queremos ou aquilo [aquele] que não conhecemos… e por isso não sabemos ainda se queremos. [4] Os discípulos respondem com uma pergunta: "Onde moras?" Sinceramente, esperava qualquer coisa como: "Quem és?" Ou: "Como te chamas?" Mas eles perguntaram-lhe: "Onde moras?" [5] A resposta de Jesus é tão improvável como a pergunta dos discípulos: "Vinde ver!" ……. "Vinde ver!" [6] Se fosse eu talvez não fosse. Talvez não o tivesse seguido… e dificilmente ter-lhe-ia perguntado: "Onde moras?" Mas os discípulos foram… e viram onde Jesus morava… e ficaram com ele. É desconcertante porque desconcerta. É desarmante porque desarma. Mais uma vez a atitude…
Samuel é o primeiro profeta: "Fala, Senhor, que o teu servo escuta!" Profeta é aquele que empresta a sua voz a Deus. Mas como pode emprestar a sua voz a Deus se não escuta a voz de Deus? É isso que nos distingue dos profetas: há neles um silêncio interior [e exterior…] que lhes permite a escuta.
"Vinde ver!" E eles foram… É isso que nos distingue dos apóstolos: uma liberdade que esmaga os nossos pretextos e os nossos contextos. Pressupõe liberdade para ir… Mais: pressupõe que essa liberdade seja uma caixa de ressonância para o amor de Deus. E isto não é apenas poético… poderia realmente mudar a minha vida.

2012-01-14

Pensei escrever algumas considerações sobre a Teoria Estética de Theodor W. Adorno, ou sobre A definição de Arte de Umberto Eco... Mas às vezes basta admitir que os Maroon 5, em apenas 4 minutos e 18 segundos, podem ser menos eruditos, mas conseguem ser mais assertivos do que Theodor Adorno ou Umberto Eco. Não deixa de ser um tributo à História da Cultura e da Arte:

2012-01-13

Sexta-feira 13. Estive com a Karin Somers, nesse lugar onde a minha amiga escultora empresta as mãos e o coração ao ofício de criar... como se fosse Deus, mas sem angústias ou pretensões soteriológicas. Falámos do tempo... com pouco tempo para falar. Trouxe uma escultura para celebrar o aniversário da Irmã Aurora, no Colégio Luso-Francês.
Tenho exames e trabalhos para corrigir, da Escola das Artes e da Escola Superior de Biotecnologia, tenho muitas questões da UCE . Porto... mais de dez livros em processo de edição. E faltam dez dias para as provas de doutoramento. Escuto compulsivamente Primavera, o novo trabalho dos The Gift que a Ana me ofereceu.



2012-01-10

No Domingo, li esta reflexão na Capela de Fradelos:

Georges Rouault [1871-1958]



Todos nós conhecemos a história destes magos vindos do Oriente. O folclore religioso ajudou-nos a criar uma imagem mais ou menos definida destes magos: são reis, são três e até têm nomes próprios… Nos nossos presépios adquiriram diversidade étnica, viajam normalmente sobre camelos e são personagens tão exóticas quanto a nossa imaginação – o nosso imaginário… – nos permite.
Há alguns anos, num documentário bem-intencionado, falava-se das tentativas de reconhecidos astrónomos da actualidade procurarem reconstituir os céus do Médio Oriente [refiro-me à cartografia do espaço], nos anos em que situa cronologicamente o nascimento de Jesus, ou seja: tentavam perceber o que é que, no período em que se situa o nascimento de Jesus e no espaço geográfico do Médio Oriente, poderia ser observado nos céus por alguém com alguns conhecimentos no âmbito da observação astronómica, num contexto em que a astronomia e a astrológica não eram realidades distintas. Que acontecimentos astronómicos, mais ou menos invulgares, poderiam suscitar nesses homens algum interesse? Um cometa? Um alinhamento de estrelas?... Ou seja, os astrónomos da actualidade procuravam descobrir um acontecimento astronómico que pudesse ter motivado não só o interesse, mas a viagem destes magos vindos do Oriente.
É interessante? Talvez… Mas a minha fé em Cristo não depende do rigor histórico desta narrativa, nem do colorido ficcional do nosso imaginário, nem sequer da descoberta da estrela de Belém por astrónomos ou académicos eminentes. Sinceramente, enquanto uns defendem [com unhas e dentes] a versão tradicional, nos seus efeitos excessivamente cénicos, e enquanto outros [com a mesma tenacidade…] procuram escorraçar os reis magos para os domínios fabulosos das fábulas, talvez fosse importante pensarmos no que representa esta narrativa no contexto dos evangelhos da infância de Jesus.
Uma parte da resposta para esta questão está no refrão do salmo que cantámos: "Virão adorar-vos, Senhor, todos os povos da terra". Ao contrário do Evangelho de Lucas [que acentua, com os pastores, a contextualização judaica do acontecimento de Cristo], o Evangelho de Mateus fala-nos de uns estrangeiros que vêm adorar o menino; se Lucas acentua o carácter local, Mateus acentua o carácter universal do acontecimento de Cristo. E esta dinâmica – só aparentemente paradoxal – de enraizamento e, simultaneamente, de abertura, implica que entendamos que o acontecimento de Cristo tem um contexto histórico-salvífico, mas é estruturalmente universal, tem uma vocação universalista. Cristo, a sua vida [em sentido histórico], a sua mensagem [impressa e expressa nas narrativas evangélicas], e a sua redenção… têm um carácter universal, ou seja: destinam-se a todos os homens, independentemente do seu contexto existencial, entendido em termos espácio-temporais, da sua personalidade e da sua história pessoal [o seu passado e o seu presente…], da sua cultura ou etnia, da sua sensibilidade ética ou estética, da sua experiência religiosa e espiritual.
O acontecimento de Cristo é situado, mas não está sitiado. E como a Igreja só faz sentido a partir do acontecimento de Cristo, tem [tem que ter] uma natureza missionária e é [tem que ser] católica: universal... unida sem se fechar, aberta sem se dissolver. Desse modo, estes magos representam, em contexto bíblico, todos os homens que, numa perspectiva étnica, estavam tradicionalmente fora do círculo de salvação; e dizem-nos que o coração humano anseia por Cristo, por adorá-lo. Estes magos vindos do Oriente dizem-nos que a Igreja não é uma espécie de clube privado, com vícios ou pretensões de sociedade secreta; dizem-nos que a principal missão da Igreja é o 'querigma', o anúncio, o testemunho do Evangelho... e porquê? Porque o coração do Homem suspira por Cristo, aspira à redenção e carece que nós, cristãos, sejamos essa estrela. É curioso que a estrela não represente um segredo… ela está nos céus, suficientemente luminosa para que seja vista por quem a queira ver, ou seja, por quem a não ignore.
Isto levanta uma questão curiosa: nós, cristãos, por falta de luz – por escassez de espírito missionário –, como já não temos pretensão de converter alguém, sentimos que estamos tantas vezes no limite de perdermos [de nos tirarem…] a pouca fé que temos. Parece-me que essa é a lição mais importante a reter, hoje, desta narrativa: sentirmos esse fogo no coração que motiva estes homens a desinstalarem-se e a buscarem Jesus; e sentirmos que aquilo que somos, como cristãos, e aquilo que a Igreja é… depende tanto de sermos essa luz que conduz a Cristo.

2012-01-07

Ontem, no Auditório de Serralves, organizado pelo Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura, decorreu o colóquio Ver o invisível, dizer o indizível.
Pelas 16 horas, o Professor Joaquim Azevedo acolheu as pessoas, que praticamente encheram o auditório, e apresentou o colóquio. Depois, duas conversas informais, moderadas por mim, juntaram o escritor Jaime Rocha e o teólogo João Duque, o arquitecto Siza Vieira e escritor Valter Hugo Mãe.

Com João Duque e Jaime Rocha.


Jaime Rocha [1949] frequentou a Faculdade de Letras, em Lisboa, e viveu em Paris nos últimos anos do Estado Novo. É autor de uma vasta obra no domínio da ficção, da poesia e do teatro. Em 2010 publicou Necrophilia, livro com que termina a sua impressiva Tetralogia da Assombração: Os que vão morrer [2000], Zona de caça [2002] e Lacrimatória [2005].
João Duque [1964] doutorou-se em Frankfurt, na área da Filosofia da Arte. É professor e presidente do Centro Regional de Braga da Universidade Católica. Autor de uma vasta obra, fundamentalmente nos domínios da Teologia e da Filosofia, João Duque realizou estudos de órgão, composição e direcção coral.
Esta primeira conversa foi muito interessante, na medida em que, para além da poesia, do teatro e da música, possibilitou um olhar teológico e filosófico sobre a visão do que não se vê [do que ainda não se vê...] e sobre a dicção do que não se diz [do que ainda não se diz...]. Falámos de modos de ver e modos de dizer, de intuição, de aparições, de intérpretes e interpretações... Falámos do caos que o teatro impõe e do sentido com que a poesia reordena a realidade. Começámos a falar do modo como o poeta observa a morte e terminámos a falar do modo como o teólogo percebe o processo de desfiguração do Homem... coisas tão oníricas e hieráticas como os naufrágios, a ausência do que se vê ou a presença do que é [ainda] invisível.

Com Valter Hugo Mãe e Siza Vieira.


Siza Vieira [1933] estudou na Escola Superior de Belas Artes do Porto. A sua obra fala por si... Trata-se de um dos mais notáveis e reconhecidos arquitectos contemporâneos, e a consciência que todos temos disso vale mais do que qualquer nota biográfica. Entre os seus projectos, espalhados por todo o mundo, destaco o Museu de Serralves ou a Igreja de Santa Maria, no Marco de Canaveses.
Valter Hugo Mãe [1971] estudou Direito, mas foi o poeta que se afirmou, numa obra vasta, reunida em 2010 em contabilidade. Com o nosso reino, em 2004, nasce o ficcionista. Recebe o Prémio José Saramago em 2006, com o remorso de baltazar serapião; seguem-se o apocalipse dos trabalhadores [2008], a máquina de fazer espanhóis [2010] e o filho de mil homens [2011].
Esta segunda conversa teve uma maior componente de deriva. Falámos do processo que separa a visão da revelação e falámos do silêncio que precede a palavra... e, ainda assim, a nossa conversa foi habitada pelo que não se vê para lá do que se revela, pelo que não se diz para lá da palavra. Falámos do tempo, do tempo que é necessário entre o que se vê e o invisível, entre o que se diz e o indizível, o tempo... Falámos do trabalho partilhado e da solidão. Falámos dos olhos que não vêem e dos poetas serem esses homens que vêem dentro. Houve um instante em que Siza Vieira disse que "um poema com qualidade é um relógio suíço ao quadrado", porque é uma obra de precisão e rigor inigualável.

Com Manoel de Oliveira e Valter Hugo Mãe.


Entre as pessoas que se reuniram ontem no Auditório de Serralves, esteve Manoel de Oliveira. O que posso escrever sobre Manoel de Oliveira?... No final do colóquio pedi que nos falasse e o notável cineasta, com 103 anos, silenciou-nos... logo com as suas primeiras palavras: "Estou aqui atraído pelo invisível". Este colóquio ['colóquio' significa, precisamente, 'conversa'], que começara pelas 16 horas com as palavras do Professor Joaquim Azevedo, terminou, quatro horas depois, com uma intervenção inesquecível do Mestre Manoel de Oliveira.
Para mim, foi uma honra moderar este encontro, estas conversas... e conhecer pessoalmente o poeta Jaime Rocha, o arquitecto Siza Vieira e o cineasta Manoel de Oliveira, e reencontrar o Professor João Duque e o Valter Hugo Mãe. A minha biblioteca tem mais nove livros dedicados e assinados, entre eles Anima, do poeta José Manuel Teixeira da Silva, que esteve presente neste acontecimento, no limite do que já vemos e do que ainda não vemos, do que já dizemos e do que ainda não sabemos dizer.
As fotografias são do meu amigo Pedro Gabriel Rocha.

2012-01-06



Hoje modero duas conversas no Auditório de Serralves, com João Duque e Jaime Rocha, Siza Vieira e Valter Hugo Mãe. Vamos conversar sobre ver o invisível... e dizer o indizível. Ontem perdi a oportunidade de comprar um livro muito importante para a minha biblioteca de primeiras edições de Teixeira de Pascoaes... que decepção! Com tanto trabalho e tantos compromissos, sinto-me pouco produtivo... e pouco criativo. A proximidade das provas de doutoramento está a vandalizar o meu estômago e a poluir os meus silêncios. Um destes dias começo a respeitar o novo acordo ortográfico...

2012-01-05

É já amanhã...

2012-01-04



Há 83 anos, no dia 4 de Janeiro de 1929, Guilherme de Faria apanhou o comboio para Cascais na Estação Ferroviária do Cais do Sodré. Escreveu dois bilhetes-postais que endereçou ao irmão José. Com uma caligrafia claramente alterada, dá indicações a José sobre a edição de Desencanto e da antologia Saudade Minha (poesias escolhidas). Colocou os bilhetes-postais no correio e seguiu, junto ao mar, até à Cidadela e depois pela Estrada da Boca do Inferno. Foi um caminho sem retorno. Descalço e com um terço de rezar ao pescoço, com apenas 21 anos de idade, Guilherme de Faria precipitou-se no mar. As fragas, a água fria e a violência das vagas reclamaram o seu corpo. Tendo recebido os bilhetes-postais com o carimbo de Cascais, José inicia as buscas do corpo do irmão, desde a Boca do Inferno, pela volta da Guia, até à Praia do Peixe, onde foi encontrado o corpo de Guilherme de Faria.
O destino do poeta ficaria indissoluvelmente ligado ao destino de Portugal, como uma metáfora, do berço ao ataúde, da presença tutelar e antiga do Castelo de Guimarães a um desolado areal desta 'ocidental praia Lusitana', num dia de inverno. Como mais tarde escreveu Alfredo Pimenta, Guilherme de Faria foi "o último Poeta português, que aos 21 anos se deixou enfeitiçar pelo marulho das ondas e no seio destas se foi cantar a sua última estrofe."

2012-01-03

Lembrei-me das palavras de Gamoneda: "Venho do metileno e do amor; tive frio debaixo dos tubos da morte". A magnólia despojou-se das folhas e revela um extraordinário potencial de floração, um verdadeiro milagre num jardim cansado do Inverno. Apesar do frio, a magnólia segreda-me a Primavera...

2012-01-02



Quem se recorda de um homem desconhecido que inesperadamente se apresentou na varanda de S. Pedro de Roma, no dia 16 de Outubro de 1978? Foram estas as suas palavras: "Não tenhais medo! Abri, escancarai as portas a Cristo! Ao Seu poder salvífico abri os confins dos Estados, os sistemas económicos como também os políticos, os vastos campos da cultura, da civilização e do desenvolvimento. Não tenhais medo!" ["Non abbiate paura!"]

2012-01-01

2012 começa cinzento. Li esta reflexão na Capela de Fradelos...

Emil Nolde [1867-1956], A Ceia.



O domingo da Oitava de Natal coincide com o dia 1 de Janeiro de 2012, Dia Mundial da Paz, 1º dia de um novo o ano.
O tempo é neutro, por isso é estranho que se enfatize tanto a novidade que este dia representa, desde Sidney ao Rio de Janeiro, desde Tóquio a Nova Iorque. Entre festejos, com mais ou menos fogo-de-artifício, entre brindes e desejos para o novo ano, as superstições e os medos dos homens desfilam de mãos dadas, com matizes milenaristas e apocalípticos quando a festa acaba e a ressaca não recorda os melhores desejos para o tempo novo que neste dia, simbolicamente, se inaugura. É normal. A festa dos loucos termina sempre mal e há em tudo isto uma loucura aceitável no sentido de razoável, razoável no sentido de aceitável.
No contexto dos escritos de S. Paulo, há três tipos de tempo: o 'chrónos', o 'aiôn' e o 'kairós'. 'Chrónos' é o tempo de vida, o espaço de tempo, o tempo biográfico que nos permite as tábuas cronológicas. 'Aiôn' é o tempo de sempre, o tempo contínuo… o tempo do mundo, das eras, dos períodos epocais, o tempo físico da imanência. 'Kairós' é o tempo oportuno para a salvação, trata-se do tempo da esperança, o presente cheio de futuro, o tempo em que a Graça de Deus redime o tempo… o tempo cronológico e o tempo aiónico.
Os cristãos também celebram o tempo cronológico e o tempo aiónico, na medida em que participam do 'chrónos' e do 'aiôn', como toda a matéria orgânica e inorgânica, das bactérias às mais longínquas estrelas… mas fundamentalmente celebram o 'kairós', o tempo kairológico, esse presente já não redutor e ensimesmado, esse presente criativo e partilhado, em que participamos de um projecto de redenção e que nos permite dizer que hoje celebramos a Paz como condição de redenção universal.
Celebrar a Paz não significa apenas desejar a Paz, significa que nos compreendemos como construtores da Paz, responsáveis pela Paz, das nossas casas às ruas das nossas cidades e aldeias, do Paralelo 38 N [que separa a Coreia] às trincheiras e valas comuns que há no mundo, à sombra de muros e muralhas ainda por derrubar. Falo da Paz que começa no momento em que as relações deixam de ser relações de poder, entre irmãos ou esposos, entre pais e filhos, entre vizinhos… Falo da Paz como projecto de vida, em contagem crescente dos dias para os meses, dos meses para os anos, dos anos para os séculos… O tempo kairológico a invadir o tempo cronológico e o tempo aiónico, e a redimir as nossas vidas.

Na Capela de Fradelos, durante 2011, atravessámos o deserto. E em 2012 continuaremos a atravessá-lo… domingo-a-domingo, com esperança e liberdade, com alegria e simplicidade, coragem e desassombro. As grandes lutas são nossas, para dentro e para fora, mais para dentro do que para fora. Continuaremos a pensar a Igreja de hoje e a Igreja de amanhã, continuaremos a contribuir para a diversidade da Una e Santa, Católica e Apostólica Igreja de Cristo. Continuaremos a ser uma comunidade nas encruzilhadas de uma cidade velha e envelhecida, com as angústias próprias de quem supera a Angústia, com os medos próprios de quem supera o Medo.
E a Igreja? A Igreja está bem… É, sociologicamente falando, um caso de sucesso: com uma história de dois mil anos, está espalhada por todo o mundo e razoavelmente organizada, tem milhões e milhões de crentes, detém um património [material e imaterial] invejável e tem uma hierarquia coesa e cooperativa [ao jeito dos correligionários]. Se compararmos o Cristianismo com o Islamismo ou outras religiões mais ou menos antigas, mais ou menos regionais, percebemos que o Cristianismo – com todas as nuances da conjuntura e com os abalos e as crises contextuais – está bem e recomenda-se. E se compararmos o Catolicismo com a Igreja Ortodoxa ou com as Igrejas Protestantes, creio que ficamos com a mesma sensação. Mas se nos abstrairmos da sociologia das religiões e compararmos a Igreja com Cristo e com o Evangelho… o problema é esse. Os correligionários não percebem, mas o problema é esse. O resto é perda de tempo. Estamos certamente a falar de coisas diferentes.
Um destes dias vamos ter que fazer uma profunda introspecção, sem reticências nem renitências, sem contextos nem pretextos, sem medo nem cooperativismo, só amor fraterno e desejo de conversão, mas não será em 2012… Seja como for, o tempo é neutro. E o nosso tempo é o 'kairós', e isso não nos aliena… pelo contrário: permite que comecemos um novo ano com as palavras de Francisco no coração: "Senhor, faz de mim um instrumento da tua Paz".

2011-12-31

Hoje termina 2011. Não consigo fazer um balanço e suspiro mais pelo futuro do que pelo passado. Ainda assim, recordo a Primavera Árabe e todos os Outonos, os que nasceram e os que morreram, os que ganharam e os que perderam, as pequenas vitórias e as pequenas derrotas. Lamento mais a cultura da crise do que a crise da cultura. Creio que 2011 não foi tão mau como uns dizem, nem tão bom como dizem outros. Recordo a Família e os Amigos que são como esteios que escoram os meus dias. Recordo a apresentação da minha Diáspora, os Caminhos, os livros, o Verão, os encontros e os reencontros... e os desencontros. Os Sigur Rós regressaram com INNI, um Inverno poético para não esquecer:

2011-12-27

As asas do desejo / Der himmel über Berlin [1987] de Wim Wenders...



A cidade vista de cima; o quotidiano, entre a vida e a morte; o desespero branco de casas fechadas sobre corpos sem terraços; a epifania do quotidiano; um circo que faliu, uma temporada que terminou, uma trapezista que [não] aprendeu a voar; a verdade desoladora e reconfortante da temporalidade e da corporeidade; o milagre de dizer a alguém: "Amo-te tanto hoje"; a fragilidade da memória; a cidade ferida e a presença incontornável do muro que ainda não tinha caído; a descoberta do ocidente; as considerações de um suicida, o suicídio antecipado, a primeira queda como metáfora da primeira morte e a segunda queda como metáfora da segunda morte; a vaga sexualidade da mulher e a ausência de Deus; a vida como um trapézio [sem rede]; o tempo, o corpo e a morte; o outro lado do muro; a criança, quando criança… e a mulher que promete a mortalidade ao anjo [caído]. As asas do desejo é um acontecimento poético por dentro da condição de ser [humano]. Inefável e inesquecível.

2011-12-25



É algo poético, talvez… o que ainda não sabemos, o que só pressentimos, o frio nestas latitudes, nestes dias pequenos de Dezembro. É curioso pensarmos que o Natal de Jesus está tão distante de nós em tempo e espaço, em clima e contexto… e ainda assim, buscamos uma intimidade intensa, como se fosse connosco, parte de nós, das nossas memórias, algo tão impressivo como os nossos dias mais impressivos. Sim, é mais fácil abeirarmo-nos do presépio do que da cruz…
É curioso que se a cruz nos traz o mistério da Morte, não é o Natal, mas a Ressurreição, que nos traz o mistério da Vida. O que é que nos dá o Natal? Muito pouco, quase nada… e é esse o mistério do Natal, o que ainda não sabemos, o que só pressentimos. O que o Natal nos dá é uma comovida e poética expressão do Amor de Deus: não sabíamos, nem sequer pressentíamos… que Deus pudesse acontecer tão perto de nós. O mistério do Natal é esse tão perto de nós. O mistério do Natal é a humanidade que se esconde nesse tão perto de nós. É tão perto de nós que nem nos parece possível que possa ser Deus. E creio que foi por isso que me fiz cristão, porque a verdade está onde poucos a procuram, porque Deus está onde poucos o procuram… e o Evangelho é desconcertante, porque nos diz – sem assombros ou complexos recursos literários, mas com uma simplicidade desarmante – que Deus decidiu redimir a humanidade e, no seu projecto de salvação, dá ao mundo e ao tempo o seu Filho… e este Filho de Deus é o Filho do Homem, e nasce tão humano, tão frágil, num contexto tão humilde, tão perto de nós… e nasce tão longe das luzes da ribalta, tão longe de Roma e das outras grandes cidades do Império, tão longe dos reis e dos príncipes do mundo, tão longe dos sacerdotes; nasce em segredo, tão perto de nós. É o mistério do Natal… ainda não sabemos, mas já pressentimos.
Creio que foi por isso que me fiz cristão… o resto vem depois. Não é difícil acreditar na divindade de Jesus… hoje [como há 2000 anos…] não escasseiam pretensos deuses, deuses para isto e deuses para aquilo, deuses para tudo e deuses para nada; difícil é acreditar na humanidade de Jesus… hoje [como há 2000 anos…] é tão difícil acreditar no Homem. E esse é o mistério do Natal, como num poema de José Tolentino Mendonça:

"O Seu advento encontra-nos sempre impreparados
e, contudo, este é o momento em que
por puro dom se nasce.

A Sua vinda testemunha o que não sabíamos ainda:
a nossa frágil humanidade é narração
da autobiografia de Deus."

2011-12-24

Feliz Natal...

Silent Night from Fredo Viola on Vimeo.

2011-12-23

Recebi hoje uma carta da Faculdade de Letras da Universidade do Porto que assumi como um postal de Natal: foram marcadas as provas de doutoramento para o dia 24 de Janeiro de 2012, às 15 horas, no Anfiteatro Nobre. Serão arguentes os Professores Doutores José Carlos Seabra Pereira e António Cândido Franco.



Em Outubro de 2005 inscreve-me no doutoramento em Filosofia da Religião na Universidade Católica Portuguesa . Braga, sob a orientação do Professor Doutor José Gonçalves Gama. Em Outubro de 2007, no centenário do nascimento de Guilherme de Faria, pedi transferência para o doutoramento em Literaturas e Culturas Românicas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sob a orientação da Professora Doutora Maria João Reynaud, com o título: Os versos de luz por escrever: Vida e Obra de Guilherme de Faria.
Em Novembro de 2007, o Tomás celebrou o 3º aniversário e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia [FCT] atribuiu-me uma bolsa de investigação. Em Dezembro nasceu a Beatriz. Em Fevereiro de 2008 o João celebrou o 6º aniversário... Durante estes anos leccionei com horário completo no Colégio Luso-Francês, em 2009/10 leccionei em acumulação na Escola Superior de Educação Paula Frassinetti, em 2010/11 comecei a trabalhar na Universidade Católica Portuguesa . Porto [como docente da Escola das Artes e editor] e, em acumulação, continuei a leccionar no Colégio Luso-Francês.
Durante estes anos desenvolvi projectos como a Cosmorama; coordenei a equipa de redacção dos novos manuais de EMRC para o Ensino Secundário [Alicerces, SNEC] e escrevi duas unidades lectivas [Um sentido para a Vida / 6 e Arte cristã / 10]; trabalhei empenhadamente no Centro Catecumenal da Igreja do Porto e na comunidade da Capela de Fradelos [com o P. Leonel Oliveira] e, mais recentemente, no Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultural [com o Professor Joaquim Azevedo]. Desde 2007, organizei dez Caminhos de Santiago, nos quais participaram cerca de 1500 companheiros... Em 2009 reuni a minha poesia em Diáspora, livro reeditado em Novembro de 2011.
No que diz respeito ao Guilherme de Faria: para além dos contactos e da divulgação da vida e obra do poeta, organizei as comemorações do centenário do seu nascimento, em 2007, e apresentei a 2ª edição de Saudade Minha (poesias escolhidas); em 2008 foi publicada a 3ª edição desta antologia.
Entre 2007 e 2009, apresentei três comunicações em colóquios internacionais: "O sentido soteriológico do espólio de Guilherme de Faria", FLUP, 18 de Outubro de 2007 [Colóquio Internacional: Crítica Textual e Crítica Genética em Diálogo]; "O corpo e a morte. Uma leitura teológica circunstancial da vida e obra do poeta Guilherme de Faria", FLUP, 24 de Abril de 2009 [Colóquio Internacional e Interdisciplinar: Artes da Perversão]; "Guilherme de Faria: entre a identidade e o anacronismo", FLUP, 3 de Dezembro de 2009 [Colóquio Internacional: Literaturas Nacionais, continuidade ou fim?].
Entre 2006 e 2011 reuni um espólio com centenas de documentos de Guilherme de Faria, as suas primeiras edições foram significativamente revalorizadas, a antologia da sua poesia foi duas vezes reeditada e regressou às secções de poesia das livrarias portuguesas. Agora vou defender a dissertação de doutoramento que, fundamentalmente, recupera a vida e a obra de Guilherme de Faria e procura restituí-las à História da Literatura Portuguesa.
Foi uma honra ser orientado pela Professora Doutora Maria João Reynaud e é uma honra ter nas minhas provas de doutoramento, na condição de arguentes, os Professores Doutores José Carlos Seabra Pereira e António Cândido Franco.

2011-12-21

Morreu Kim Jong-il aos 69 anos. "O nosso querido líder Kim Jong-il morreu no sábado, dia 17, quando viajava para realizar as suas funções de liderança", disse, entre lágrimas e com traje de luto, uma apresentadora do canal norte-coreano estatal de Pyongyang KCTV.
Na nota enviada à comunicação social, o Partido Comunista Português diz que reafirma "a sua posição de respeito e de solidariedade para com a soberania da República Democrática Popular da Coreia, o direito que lhe assiste a determinar o seu rumo próprio de desenvolvimento em condições de paz e não ingerência nos seus assuntos internos, e o objectivo da reunificação pacífica da nação coreana". O PCP "reafirma a solidariedade para com o povo coreano perante as pressões, agressões e tentativas de desestabilização do imperialismo, a que, desde a Guerra da Coreia, no início dos anos 50, o povo coreano e a RDPC têm estado permanentemente sujeitos". O PCP repudia ainda "a agenda intervencionista do imperialismo, designadamente dos Estados Unidos, na península coreana e região da Ásia-Pacífico".



O que eu sei [o que todos sabemos...] sobre a Coreia do Norte: um totalitarismo violento e de certo modo insólito, nas suas especificidades; um militarismo compulsivo; as dramáticas condições de vida do povo norte-coreano... a pobreza extrema, a repressão endémica.
Nas cerimónias fúnebres de Kim Jong-il, não consigo distinguir com clareza a propaganda do histerismo colectivo. Mas não compreendo realmente que um partido português, com representação parlamentar, em 2011, tenha a desonestidade e/ou a inépcia de fazer estas declarações.
O Taj Mahal é um mausoléu situado em Agra [Índia], construído junto ao rio Yamuna, entre 1630 e 1652. Custa aceitar que possa morrer sem entregar um frágil instante a este lugar...