2014-07-17

Raquel Aparicio


Em setembro publicarei um novo livro de poesia — Ainda — com desenhos do Valter Hugo Mãe e traduções do José Pedro Angélico [inglês] e da Miriam Reyes [espanhol]. Deixo aqui um dos textos traduzido para espanhol: "Se me podría silenciar el corazón dentro del pecho antes que la culpa me doliese como las manos con fuerza contra las sienes. Me hablabas de la felicidad mientras ajardinabas cementerios, pero nunca dijiste que sería feliz. Sé que esto no es un poema. Le falta un bosque de abedules, pájaros azules, mujeres epistémicas, violoncelos escatológicos, un porche donde pudiese recordar tu juventud, el sabor del café, la taza caliente entre las manos, el rumor de un dios que enviase golondrinas para redimirme el invierno."

2014-07-12



«Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona, a poesia do nosso tempo diz: "Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres."»
| Sophia de Mello Breyner Andresen

2014-07-10

Pedreira de Ostermunding [Paul Klee]


Continuo imerso na preparação do ano lectivo 2014/15 no Colégio Luso-Francês e no trabalho de coordenação dos colégios das Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora. Depois do Colóquio "Um outro longe" e da cerimónia de concessão de honras de Panteão Nacional a Sophia de Mello Breyner Andresen, preparo o plano de actividades da Cátedra Poesia e Transcendência para 2014/15, corrijo os exames de ECMC II da Escola das Artes da Universidade Católica e organizo o programa de Humanismo e Cultura Cristã para o próximo ano lectivo.
Estou a escrever um ensaio sobre a poesia de Valter Hugo Mãe e a preparar os prefácios das obras poéticas de Fernando de Castro Branco e Carlos Alberto Braga. Em agosto organizarei a edição d’«O Livro de Guilherme de Faria II», que reunirá os poemas que não foram integrados em «Saudade Minha [poesias escolhidas]», dispersos e inéditos. Ainda não sei como vou gerir a Cosmorama Edições em 2014/15...
Regressei ao karaté por estes dias, entre contracturas e a vontade de recuperar o que perdi em 2014. No próximo domingo, às 11h., presido à última Celebração da Palavra de 2013/14 na Capela de Fradelos… as portas reabrirão no dia 7 de setembro. Termino julho em Barcelona, num ano em que andei por Paris, Roma e Salamanca. Guardo o propósito de reler o «Livro do Desassossego» [de Fernando Pessoa] em agosto. E por estes dias, tão desassossegados, continuo a repetir silenciosamente estas palavras nas entrelinhas do poema de Hilde Domin:

«Não deixes o cansaço instalar-se
em vez disso
silenciosamente
como a um pássaro
estende a mão ao milagre.»


José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia coordenam esta sexta-feira e sábado, em Famalicão, o encontro "Carmina I – deus como interrogação na poesia portuguesa".
O programa da iniciativa organizada pela Fundação Cupertino de Miranda, em parceria como a autarquia famalicense, inclui a realização de vários debates e o lançamento da antologia "Verbo. Deus como interrogação na poesia portuguesa", editada pela Assírio & Alvim.
O encontro, que decorre no auditório da Fundação Cupertino de Miranda, começa às 10h.30 como "A interrogação de Deus na poesia portuguesa – breves achas para uma grande fogueira", com José Tolentino Mendonça, Pedro Mexia e moderação de Sousa Dias. Pelas 12h.00, Alex Villas Boas fala sobre "A interrogação de Deus na poesia brasileira", seguindo-se, às 15h.00, a mesa redonda "À poesia o que é da poesia e a Deus o que é de Deus", com Fernando J.B. Martinho, Maria João Reynaud, Rosa Maria Martelo e Maria João Costa.
A iniciativa prossegue no sábado, às 10h.00, com o lançamento da antologia, e meia hora depois realiza-se o debate que encerra o encontro: "Deus nunca acaba de ser dito pelos poetas", com Armando Silva Carvalho, Carlos Poças Falcão, Fernando Echevarría, Pedro Mexia e José Tolentino Mendonça.
Durante os dois dias, Isaque Ferreira, João Rios e Rui Spranger animam nas ruas de Famalicão a iniciativa "A Poesia está na rua". Paralelamente ao encontro, que se realiza no auditório da Fundação Cupertino de Miranda, está prevista a abertura de uma livraria com centenas de títulos de poesia para venda ao público, alguns dos quais raros e fora dos habituais circuitos de venda.
A antologia contém poemas de Vitorino Nemésio, Ruy Cinatti, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Echevarría, José Bento, Ruy Belo, Cristovam Pavia, Pedro Tamen, Armando Silva Carvalho, Carlos Poças Falcão, Adília Lopes e Daniel Faria. O volume, que «não é uma antologia para crentes ou não-crentes», dá «exemplos de um tema, de um motivo, de uma obsessão» que consiste numa «pergunta que nunca está respondida», aponta uma nota de apresentação da obra.

2014-07-09

Com 12 anos [em 1986], partilhei com a minha mãe que gostaria de aprender uma arte marcial. Ela concordou e deu-me para as mãos a lista telefónica, no sentido de procurar e escolher uma escola. E assim foi: nas Páginas Amarelas [na secção das 'academias' de artes marciais], encontrei os contactos de inúmeras escolas mais ou menos próximas de minha casa. Nos anos 80 as Páginas Amarelas tinham quase o estatuto de 'sagrada escritura'... o Google não era concebível nem na mais ousada ficção científica.
Visitei várias escolas, assisti a treinos, anotei preços junto aos contactos. Ainda me lembro do dia em que entrei no Bushidokan. Gostei tanto daquele espaço que decidi imediatamente que queria ali aprender Karaté [Shotokai]. Tinha 12 anos e o meu mestre – Domingos Silva – tinha 22. Foi um período que recordo como um tempo de aprendizagem, de amizade, de descoberta daquilo que é uma arte marcial, mas também uma espécie de filosofia que implica atitude, auto-controlo, corporeidade, disciplina, concentração. Para mim, foi verdadeiramente uma escola [de vida] e o Domingos [ainda muito jovem] tornou-se um mestre e um amigo.
Os anos passaram e o divórcio dos meus pais, a mudança de casa e todas as vicissitudes desse contexto impediram-me de continuar. Em 2011, uns vinte anos depois, reencontrei o Domingos e o Bushidokan, e comecei a reaprender Karaté [Shotokai], agora com quase 40 anos, mas com a mesma vontade, o mesmo fascínio. Reencontrei o mesmo Domingos, mas mais experiente e com um caminho que o tornou [pelas suas qualidades pessoais, mas também por uma dedicação impressionante] num daqueles casos raros em que tudo se conjuga para um grande mestre de Karaté, num estilo que se reinterpreta à luz da melhor tradição proposta pelo mestre Egami.
No último sábado fui eleito presidente da Assembleia Geral da Associação Bushidokan de Artes Marciais [ABAM]. Hoje o Carlos Braga fez exame para 3.º kyu. A partir de setembro o mestre Domingos Silva começa a ensinar Karaté Shotokai no Colégio Luso Francês.

2014-07-04

No dia 2 de julho [entre as 18h.30 e as 20h.], decorreu a segunda parte do Colóquio "Um outro longe", na Universidade Católica | Porto [Auditório das Pós-graduações], com comunicações de José Almeida, Luís Leal, José Pedro Angélico e Pedro Pereira.

2014-07-03



Ontem, na cerimónia de concessão de honras de Panteão Nacional a Sophia de Mello Breyner Andresen: o Presidente da República, a Presidente da Assembleia da República e o Primeiro-Ministro assinam o Termo de Sepultura no Panteão Nacional; converso com Eduardo Lourenço, junto a Pilar del Rio e Lídia Jorge; com Isabel Sofia Andresen que me explicava que aquelas rosas brancas tinham estado sobre o ataúde de Sophia durante a celebração presidida pelo D. Manuel Clemente, na Capela do Rato.

2014-07-02

Por estes dias tenho arrumado conceptualmente nos meus arquivos existenciais os quatro intensos anos que passei na Universidade Católica. Ficarei como professor convidado da Escola das Artes e como director da Cátedra de Sophia, e continuarei a desenvolver [na medida do possível...] projectos de investigação no contexto do Centro de Estudos do Pensamento Português.
Tem sido muito intensa a preparação do próximo ano lectivo no Colégio Luso-Francês. Há momentos em que se impõe algum desassossego, outros em que me pacifico na consciência de me sentir preparado e motivado para essa missão. Seja como for, foi desenganado que aceitei ser director pedagógico do CLF. Com quase 40 anos, já percebi que sou de me gastar.
Nos últimos 15 dias, entre reuniões e avaliações, percorri o Caminho de Santiago até Fisterra com um grupo de alunos do CLF e, no contexto da Cátedra de Sophia, acolhi o Jorge Melícias na Universidade Católica, organizei o Colóquio "Um outro longe" [com intervenções de Valter Hugo Mãe, Pedro Pereira, José Almeida, Luís Leal e José Pedro Angélico], estarei hoje no Panteão Nacional e evocarei a memória de Sophia na Feira do Livro de Barcelos, no dia 4 julho [pelas 22h.30].



Hoje, no 10.º aniversário da morte de Sophia, decorrerá na Universidade Católica | Porto [pelas 18h.30] a segunda parte do Colóquio "Um outro longe", com comunicações de Pedro Pereira, José Almeida, Luis Leal e José Pedro Angélico. Eu representarei a Cátedra Poesia e Transcendência na Cerimónia de Concessão de Honras de Panteão Nacional a Sophia de Mello Breyner Andresen.


Ontem [entre as 18h.30 e as 20h.], decorreu a primeira parte do Colóquio "Um outro longe", no Auditório Carvalho Guerra da Universidade Católica | Porto. Conversámos sobre o diálogo entre Literatura e Filosofia em Antero de Quental e Teixeira de Pascoaes e evocámos a memória de Sophia de Mello Breyner Andresen. Mais um momento memorável proporcionado pela Cátedra Poesia e Transcendência, com a presença de Valter Hugo Mãe.

2014-06-22

Nos dias 1 e 2 de julho, na Universidade Católica | Porto, decorrerá o Colóquio "Um outro longe": Literatura e Filosofia, no contexto do 10.º aniversário da morte de Sophia de Mello Breyner Andresen.



1 de julho | Auditório Carvalho Guerra
18h.30 | conferência: José Rui Teixeira | Poetas-filósofos ou filósofos-poetas? Disforia histórico-cultural no contexto português: entre Antero de Quental e Teixeira de Pascoaes; 19h.30 | evocação da memória de Sophia: Valter Hugo Mãe | Todo o poema é lonjura que imita o estar perto.

2 de julho | Auditório das Pós-graduações
18h.30 | mesa-redonda: Pedro Pereira | Da utopia à distopia da insignificância: uma leitura existencialista do Húmus de Brandão; José Almeida | A aventura espiritual do poeta: iniciação, exoterismo e esoterismo em Fernando Pessoa; Luís Leal | Vergílio Ferreira: o homem condenado a pensar[-se]; José Pedro Angélico | "Amanhecemos sem braços para a luz total". Meditação sobre a [in]capacidade teologal e a poesia de Daniel Faria.


O meu amigo poeta Jorge Melícias veio à Universidade Católica | Porto, no dia 19 de junho, numa iniciativa da Cátedra Poesia e Transcendência, falar sobre a sua obra poética, no contexto da edição de alvídrio, um livro que reúne 15 anos de poesia, entre iniciação ao remorso [1998] e felonia [2013]. Acredito profundamente numa academia que religa o conhecimento científico à cultura e que se abre à comunidade.

2014-06-11

Cátedra de Sophia | 2013/14

Por indicação do Prof. Doutor Arnaldo de Pinho, o Prof. Doutor Joaquim Azevedo nomeou-me director e presidente do Conselho Científico da Cátedra Poesia e Transcendência [Cátedra de Sophia] no dia 17 de maio de 2013.
No dia 6 de novembro de 2013, o Conselho Científico da Cátedra Poesia e Transcendência reuniu no Centro Regional do Porto da Universidade Católica. Compõem o Conselho Científico da Cátedra os três elementos da Direcção: eu próprio, o Prof. Doutor Henrique Manuel Pereira e o Prof. Doutor José Pedro Angélico; o Prof. Doutor António Cândido Franco [Universidade de Évora], o Prof. Doutor José Acácio Aguiar de Castro [Universidade Católica], o Prof. Doutor José Carlos Seabra Pereira [Universidade de Coimbra] e a Prof.ª Doutora Maria João Reynaud [Universidade do Porto].
Nesse mesmo dia 6 de novembro, no Auditório Carvalho Guerra [UCP Porto], foi [re]apresentada a Cátedra Poesia e Transcendência – Sophia de Mello Breyner Andresen, por ocasião do 94.º aniversário do nascimento da poetisa. Depois das palavras do Prof. Doutor Manuel Vaz [presidente do Centro Regional do Porto da Universidade Católica] e do Prof. Doutor Arnaldo de Pinho, pronunciei a conferência: «O vazio que persiste à minha beira. Sobre o lugar de Deus na poesia contemporânea». No final, a Prof.ª Doutora Maria João Reynaud evocou a memória de Sophia de Mello Breyner Andresen, numa sessão em que estiveram presentes mais de 150 pessoas.
No dia 7 de novembro, a Cátedra de Sophia integrou a "rede social" Facebook [www.facebook.com/catedradesophia], onde divulga e noticia a sua actividade.
Na condição de director da Cátedra de Sophia, pronunciei a conferência: «O murmúrio da Revelação. Poesia e profecia em Teixeira de Pascoaes», no Colóquio Internacional Filosofia e Literatura: Palavra, Escuta e Silêncio, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no dia 6 de dezembro de 2013.
No dia 12 de dezembro de 2013, a Cátedra de Sophia associou-se à divulgação e apresentação do documentário «Mibangas e Frutos», realizado pelo Prof. Doutor Henrique Manuel Pereira, sobre o Padre Telmo Ferraz [Auditório Ilídio Pinho, UCP Porto].
No dia 4 de janeiro de 2014, no Auditório Carvalho Guerra [UCP Porto], a Cátedra de Sophia promoveu o Colóquio Post-scriptum, sobre a Vida e Obra de Guilherme de Faria, no 85.º aniversário da morte do poeta. Foram pronunciadas conferências pelo Prof. Doutor José Carlos Seabra Pereira, pela Prof.ª Doutora Cristina Nobre e pelo Prof. Doutor José Pedro Angélico, Eu reflecti «Acerca do desterro: António Nobre, Mário de Sá-Carneiro e Guilherme de Faria. Teias contextuais, intertextuais e intratextuais [1890-1930]». Foram apresentados dois livros: «O Livro de Guilherme de Faria I. Saudade Minha [poesias escolhidas]» e «Vida e Obra de Guilherme de Faria: Os versos de luz por escrever». No final, um recital com a Prof.ª Doutora Sofia Lourenço [piano] e com o Prof. Doutor Henrique Manuel Pereira [leitura de poemas de Guilherme de Faria].
Na condição de director da Cátedra de Sophia, pronunciei a conferência: «Guilherme de Faria: entre o desterro e a saudade de Deus», no 4.º Seminário Redenção e Escatologia no Pensamento Português, na UCP Porto, no dia 3 de abril.
Nos dias 7 e 8 de maio, dois elementos da Direcção da Cátedra de Sophia participaram, na condição de conferencistas, nas VII Jornadas de Cultura Hispano-Portuguesa, na Universidade Pontificia de Salamanca. O Prof. Doutor José Pedro Angélico refectiu sobre a poesia de Daniel Faria, enquanto eu reflecti sobre a relação entre a Literatura e a Filosofia em Antero de Quental e Teixeira de Pascoaes. E no dia 17 de maio, foi aceite a proposta de parceria entre o Instituto de Pensamiento Iberoamericano da Universidade Pontificia de Salamanca e a Cátedra de Sophia, com o objectivo de co-organizarem as Jornadas de Cultura Hispano-Portuguesa. O Centro Regional do Porto da UCP acolherá as VIII e as X Jornadas de Cultura Hispano-Portuguesa, em 2016 e 2020. Eu e o Prof. Doutor José Luis Guzón seremos os coordenadores científicos desta iniciativa.
No dia 22 de maio, a Cátedra de Sophia associou-se à organização e divulgação da homenagem ao poeta e ensaísta Fernando Guimarães [«Porto Culto do século xx»], na UCP Porto.

No dia 19 de junho, no Auditório das Pós-graduações da UCP Porto, pronunciarei a conferência: «Onde a resiliência da pedra toca a exacção da fractura. Leituras da poesia de Jorge Melícias».

Nos dias 1 e 2 de julho, na UCP Porto, decorrerá o Colóquio «Um outro longe»: Literatura e Filosofia, no 10.º aniversário da morte de Sophia. Programa:

I. 1 de julho
18h.30 | conferência: José Rui Teixeira | Poetas-filósofos ou filósofos-poetas? Disforia histórico-cultural no contexto português: entre Antero de Quental e Teixeira de Pascoaes.
19h.30 | evocação da memória de Sophia: Valter Hugo Mãe | Todo o poema é lonjura que imita o estar perto.

II. 2 de julho
18h.30 | mesa-redonda:
Pedro Pereira | Da utopia à distopia da insignificância: uma leitura existencialista do Húmus de Brandão.
José Almeida | A aventura espiritual do poeta: iniciação, exoterismo e esoterismo em Fernando Pessoa.
Luís Leal | Vergílio Ferreira: o homem condenado a pensar[-se].
José Pedro Angélico | "Amanhecemos sem braços para a luz total". Meditação sobre a [in]capacidade teologal e a poesia de Daniel Faria.




Na condição de director da Cátedra de Sophia, estarei presente na cerimónia de trasladação da poetisa para o Panteão Nacional, no dia 2 de julho de 2014.


Em outubro de 2014, a Cátedra Poesia e Transcendência [Sophia de Mello Breyner Andresen] apresentará o projecto de investigação: «A mulher e a morte na arte e na poesia portuguesa», coordenado por mim e pela Prof.ª Doutora Joana Ramôa Melo [Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa].

2014-06-10

Cheguei ao Cemitério do Père-Lachaise: uma cidade construída para os mortos dentro da cidade dos vivos, mas bem delimitada, não tanto pelos imponentes muros, mas fundamentalmente pela consciência de que este é um domínio que os vivos não cobiçam. Aqui percebe-se que honramos os mortos com monumentos fúnebres com a pretensão de prender a memória por meio dessa atadura abstracta que é um epitáfio ou um nome inscrito na pedra, ou a vacuidade de expressões como «morada perpétua».
É estranho: os monumentos fúnebres são os instrumentos com que esquecemos os mortos, edificamos-lhes memoriais em pedra para que possamos esquecê-los sem que nos sintamos culpados... e para que eles se esqueçam de nós. Mas nem nós os lembramos, nem a morte nos esquece. É aterrador: aqui, no meio de tantos memoriais, só há esquecimento. Na verdade, os corpos já se decompuseram, os túmulos estão em ruínas e um dia não restará memória do Cemitério do Père-Lachaise e não haverá quem lembre a beleza de Paris ou a glória da França. C'est la vie! La réalité sans espoir...

E neste silêncio grave, consigo escutar o rumor da morte.
Só há turistas e mortos no Cemitério do Père-Lachaise. Os turistas passeiam pelo cemitério com a mesma displicência com que percorrem os corredores do Louvre. Buscam a sepultura de uma qualquer celebridade com a mesma gula ingénua com que procuram a Gioconda. Têm mais olhos que barriga.
Eu também passei pela sepultura de Balzac e de Proust, mas vim ao Père-Lachaise com um propósito bem definido. Li recentemente as memórias de Paris de Diogo de Macedo – 14 Cité Falguière –, onde me apaixonei pela pessoa de Amedeo Modigliani [há muito me havia apaixonado pelo pintor...]. Queria sentar-me junto à sua sepultura, onde também se encontra o corpo de Jeanne Hébuterne. Na verdade, foi por causa de Jeanne que vim ao Cemitério do Père-Lachaise.
Amedeo morreu no dia 24 de janeiro de 1920 [vítima de tuberculose e de uma dessas vidas de que se morre antes que o tempo traga a morte]; no dia seguinte, Jeanne [com uma filha com pouco mais de um ano e grávida de oito meses] põe fim à sua vida [vítima de uma dessas mortes de que se vive antes que o tempo traga a vida]. Só passados nove anos o seu corpo [cujo útero se converteu num sombrio e solene ataúde] se juntou ao de Amedeo.



Aqui sentado, junto a flores mortas, tristes como melopeias sobre o granito, disse-lhe algo que não me atrevo a escrever.
Começou a chover. Não tenho um cigarro que possa fumar. Um corvo hierático e lúgubre pousou numa sepultura próxima. Podia ser um pássaro azul, onírico, de esplêndidas asas metafísicas… mas é apenas um corvo, negro como são os corvos.
Está na hora de regressar ao mundo dos vivos. Talvez não volte à sepultura de Amedeo e de Jeanne. Há coisas que só se dizem uma vez, confissões que não podem ser repetidas.
[... no meu moleskine; Paris, 22 de maio de 2014]


No dia 19 de junho [pelas 18h.30], no Auditório das Pós-graduações [sala EC105] da Universidade Católica [Foz], apresento o livro do poeta Jorge Melícias — Alvídrio — com a conferência: «Onde a resiliência da pedra toca a exacção da fractura. Leituras da poesia de Jorge Melícias». Uma iniciativa da Cátedra Poesia e Transcendência [Sophia de Mello Breyner Andresen] da Universidade Católica.

2014-06-08

Ontem adormeci a ler o Diário Íntimo de Manuel Laranjeira, que nasceu em 1887 e pôs fim à sua vida em 1912, com apenas 24 anos. No dia 4 de janeiro de 1909 [exactamente vinte anos antes do suicídio de Guilherme de Faria], Manuel Laranjeira escreve no seu diário:

«A vida hoje foi para mim, como em tantos outros dias, igual, parda, ordinária… Nestas horas assim gris, sinto a sensação penosa de que a vida se me está gastando, esgotando, imbecilmente… – sem eu a viver. E sinto esta ideia de pesar que hei-de morrer sem ter sabido viver a vida… Afinal o mal da nossa vida é não saber vivê-la… ou não poder…»

Lembrei-me do suicídio de Guilherme de Faria, que nasceu em 1907 e pôs fim à sua vida no dia 4 de janeiro de 1929, com apenas 21 anos. E lembrei-me das palavras que este poeta escreveu nas páginas desse diário que encontramos nas cartas para o amigo Manuel Castro. Três parágrafos:

«Está um dia banal, dia de todos os dias, do calor de todos os dias, das bestas de todos os dias. Como deves muito bem compreender, estou infinitamente aborrecido. E a vida? A vida não existe, porquanto não me interessa. A vida passa? A vida não passa? Não sei. Não me interessa. Como todos os que viveram a vida intensamente [real ou imaginariamente], eu estou à esquina da vida, torto, míope, insignificante, de porrete à esquina, a dizer mal e a sorrir, a sorrir e a dizer mal. E a minha figura, por certo irrisória, assume proporções extra-humanas, toma gestos agressivos e altivos. Há na minha alma um frémito de voo e a minha vida é toda uma Ascensão! Mas nos meus lábios há o eterno rictus do sarcasmo. Afinal sou um céptico.» [22-08-1923] | «Por aqui a eterna e insuportável estupidez. Tudo uma monotonia enervante. Eu sou o raquítico de sempre, aquele raquítico fleumático e petulante que tu conheceste, inútil. Sorrindo, aqui e além, numa ironia desdenhosa, superior e discreta, eu passo na vida, sem reparar na vida, incompatível por natureza com a vida e com o trabalho. Mas desejo ainda! Queria viver numa doce estupidez benéfica e salutar, longe desta vida de nervosismo e idiotia, de atropelos e interesses, de juliodantismo e perversão, de insignificância e mentira!» [19-09-1923] | «Eu tenho sede de vida. Quero viver a minha vida. Estou cansado de monotonia. Tudo, afinal, é sempre o mesmo, o mesmo, o mesmo! E, Manuel, pudesse quebrar a monotonia desta vida! Tenho vivido submerso em mentira! E quero respirar! Tenho sede de ar puro! Estou saturado deste viver infecto e mesquinho, vida de lama, de sordícia e de aquiescência! Um sorriso… outro sorriso; uma frase velha, usada, banal… insignificâncias. Palavras amáveis, palavras gastas e falsas. É tudo assim. Tudo trescala hipocrisia, interesse, miséria. E, Manuel, tenho dezasseis anos e ainda não vivi! Desconheço-me! Se acaso vivo, vivo longe, bem longe do que sou. Porque, tal como sou todos os dias para todos aqueles que conheço [e às vezes, meu Deus, também para mim!], sou outro, bem diferente, sou um estranho, banal como a banalidade, hipócrita como a hipocrisia e boçal como toda a gente. E tenho sede de vida! Vozes vivas de saudade acordam dentro de mim! Vozes da minha saudade… Tenho saudades de mim! Sinto-me farto deste exílio. Vou regressar ao meu Reino! Quero viver!» [08-10-1923]


Hoje os cristãos celebram o Pentecostes, esse acontecimento fundante da História da Igreja de Cristo, em que os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar e, subitamente, vindo do Céu, ouviu-se um rumor semelhante a forte rajada de vento que encheu toda a casa onde se encontravam; depois as línguas de fogo pousaram sobre as suas cabeças, ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas… remição desse dia, em que as ambições megalómanas e imperialistas dos homens, materializadas numa torre que chegasse até Deus, foram frustradas pelo desentendimento, pela desordem. A Torre de Babel converteu-se numa ruína que simboliza o desencontro, enquanto o Pentecostes simboliza o reencontro dos homens num projecto de santificação universal, de entendimento, de amor fraterno: a Igreja é esse projecto, mesmo que por vezes não nos pareça, mesmo que não nos empenhemos comprometidamente com a dimensão pessoal dessa vocação universal à santidade, mesmo que pareçamos pouco interessados nos grandes entendimentos exigidos pelo amor fraterno ou pouco interessados no amor fraterno que nos possibilita um entendimento profundo da nossa condição de filhos de Deus. Dizia: a Igreja é esse projecto, uma realidade substantiva no coração e nas mãos de cada Homem que assume a sua vida, a sua história pessoal, como uma porção da História da Salvação, passos e actos dos Apóstolos nos caminhos do mundo, em que a temporalidade nos desgasta o corpo, tantas vezes nos agasta o espírito, mas não nos tira a Esperança, nem nos demove do Caminho, nem nos rouba a Paz, esse fragmento de Reino de Deus que nos ilumina na noite escura do medo, da angústia, do sentimento de abandono. Dizia: a Igreja é esse projecto, em que cada um de nós, na condição de santo e pecador, faz a mesa-comum, esse milagre de humanidade que representa o partir o pão, a verdade intrínseca de partilhá-lo, parti-lo em porções ainda mais pequenas, multiplicá-lo: onde dois ou três se reunirem em nome de Jesus, aí estará ele no meio deles, para que o reconheçam, para que se reconheçam uns aos outros, uns e outros, antes de regressar ao Caminho. Dizia: a Igreja é esse projecto, é ainda, apesar de tudo, a única Casa que tem a Porta aberta e a Mesa posta, recordando-nos que um dia, na Comunhão dos Santos, sorriremos na memória destes dias de diáspora, de dispersão, em que o Espírito Santo nos guiou, como presença silenciosa de Deus nas encruzilhadas, conforto na tribulação, esperança na desolação, paz nos nossos corações intranquilos.

2014-06-01



Tomás Costa nasceu em 1861, em Santiago de Riba-Ul [Oliveira de Azeméis]. Em 1882 ingressou na Academia Portuense de Belas-Artes, onde foi discípulo dos mestres Marques de Oliveira e Soares dos Reis, e condiscípulo de António Teixeira Lopes. Em 1885 concorreu ao lugar de pensionista do Estado, em Paris, e partiu para a capital francesa, onde estudou [com Alexandre Falguière e Antonin Mercier], esculpiu e participou em importantes exposições.
Em 1890, recém-chegado a Paris, António Nobre procurou Tomás Costa, que desenhou e esculpiu o busto do poeta em 1892 [ano da 1.ª edição do «Só»]. O desenho foi reproduzido na 2.ª edição do «Só» [em 1898] e o busto foi reproduzido em bronze pelas oficinas Sá Lemos [Vila Nova de Gaia] e integrado num monumento inaugurado no Porto [no Jardim da Cordoaria], em 1927. Mais tarde, foram inauguradas réplicas em Coimbra, Penafiel, Funchal, Leça da Palmeira e Póvoa de Varzim.
O poeta e o escultor regressaram a Portugal. António Nobre morreu no Porto, em 1900, e Tomás Costa morreu em Lisboa, em 1932. Este desenho e este busto revelam-nos um António Nobre jovem, apolíneo, e testemunham poeticamente esse encontro, em Paris.
No dia 22 de maio, o poeta e ensaísta Fernando Guimarães foi homenageado na Universidade Católica. Como estava em Paris, o José Pedro Angélico leu este meu pequeno texto de tributo:



Encontrámo-nos há pouco, no dia 4 de janeiro, aqui mesmo [na Universidade Católica], no Colóquio Post-scriptum, no 85.º aniversário da morte do poeta Guilherme de Faria. Provoquei o Fernando Guimarães: «E o meu amigo, quando é que envelhece?» E com um sorriso giocôndico que não raras vezes lhe rasga o rosto, o Fernando respondeu-me: «Sabe por que é que eu não envelheço aos seus olhos? Porque quando o José Rui nasceu eu já era velho.»
A verdade é que conheci o Fernando Guimarães nas páginas da Poética do Saudosismo, era ainda aluno de Teologia nesta casa. Só mais tarde [talvez em 2002] conheci a sua poesia. Em 2004 o Fernando escreveu sobre a minha poesia no Jornal de Letras, a propósito de um livro intitulado Para morrer. Conhecemo-nos pessoalmente pouco depois e, desde então, fomo-nos reencontrando. Li praticamente toda a sua obra e a minha admiração foi crescendo.
Na condição de director da Cátedra Poesia e Transcendência [a Cátedra de Sophia], quero salientar a qualidade intrínseca e a coerência da sua obra poética e ensaística, o modo como a sua poesia «opera sobre o tempo para fazer emergir o que, nele, repousa no profundo» [lembrando as palavras Ossip Mandelstam]; e o modo como a sua reflexão revela não apenas uma inteligência que perscruta lugares e ilumina caminhos, mas a efígie de um Homem de Cultura [no mais profundo sentido da expressão], um humanista.
Na condição de amigo do Fernando Guimarães, resta-me reafirmar a admiração pela sua sabedoria e pela sua humildade. O Fernando é dessas pessoas muito raras que partilham o nosso tempo, mas não envelhecem. E desde Paris envio um abraço comovido para o mestre Fernando Guimarães.
Hoje, na Capela de Fradelos:



«Homens da Galileia, por que estais assim, de olhos fixos no Céu?»
Quantas vezes ficamos paralisados, a olhar para o Céu, como se aquilo que possuíamos, tivéssemos deixado de possuir; como se a súbita ausência não pudesse representar a caixa-de-ressonância onde a presença se torna mais pura; como se um certo sentimento de abandono nos condenasse ao entorpecimento das mãos e dos pés, à fossilização do coração. Com efeito, vivemos como se o Evangelho de Cristo fosse um dado adquirido, algo que não exigisse mais do que tê-lo ouvido alguma vez, há muito tempo.
Vivemos como se para ser cristão nos bastasse uma área de conforto devidamente delimitada, a condição apaziguada de quem vive bem sem questionar o espaço de que dispõe para situar o seu processo de conversão pessoal ou um sentido para a missão de anunciar, testemunhar o Evangelho.
Vivemos como se ser Igreja nos suscitasse o ensimesmamento autoindulgente e autocomprazido das sociedades secretas ou dos clubes privados... ou vivemos anestesiados com a pretensão de Cristandade, narcotizados com patéticas vaidades alimentadas pela promiscuidade entre a Igreja e o Estado, com concordatas e "concordatices" em que o Evangelho é sistematicamente preterido em função das relações de poder e dos braços-de-ferro da "realpolitik". Vivemos entorpecidos pelas estatísticas, pela síndrome dos 99%; ou com a tentação de fazer Igreja à parte. Mas, neste domingo da Ascensão, percebemos que essa missão de anunciar o Evangelho, em qualquer sítio e situação, é identitária, diz quem somos, explica como vivemos, testemunha o conteúdo da nossa fé e a verdade do nosso amor, e revela o modo como esperamos... e é a nossa esperança que nos permite anunciar o Evangelho como se a nossa vida, enquanto cristãos, dependesse profundamente dessa partilha. Anunciamos o Evangelho, porque o Evangelho existe em nós na proporção e na medida em que o anunciamos; o Evangelho redime as nossas vidas na proporção e na medida em que o testemunhamos; o Evangelho resulta no Reino de Deus na proporção e na medida em que o partilhamos. Não há segredos... se não reconhecemos o Evangelho em nós, é porque não o anunciamos; se não permitimos que o Evangelho redima as nossas vidas, é porque não o testemunhamos; se o nosso mundo não é ainda o Reino de Deus, é porque ainda não conseguimos [ainda não soubemos] partilhá-lo.
Relembro aqui [mais uma vez] estas palavras de Paul Tillich: «Não é fácil pregar cada domingo sem se elevar a pretensão de possuir Deus e de poder dispor dele. Não é fácil pregar Deus às crianças e aos pagãos, aos céticos e aos ateus, e ter de lhes explicar, ao mesmo tempo, que nós próprios não possuímos Deus, mas que o esperamos. Eu estou convencido de que a resistência ao cristianismo vem em grande parte do facto dos cristãos, abertamente ou não, erguerem a pretensão de possuir Deus e terem assim perdido o elemento de expectativa.»
«Este Jesus que, de junto de vós, vos foi arrebatado, voltará da mesma maneira que o vistes partir para o Céu», lemos nos Atos dos Apóstolos. É isso… e é por isso que esperamos e é por isso que sabemos e sentimos que faz sentido esperá-lo. Esperá-lo sem a ilusão de possuí-lo. Esperá-lo porque Deus é de esperar, não é de possuir; é de ser esperado, não é de ser possuído. Deus espera e é esperado [condição dialogal do amor], enquanto o "diabo" possui e é possuído [e tem uma corte de possessos].
E é por isso que nos reunimos aqui, domingo-a-domingo, porque esta pequena Capela é um lugar da esperança, porque esta pequena Comunidade guarda o futuro, porque o nosso coração espera como se batesse, bate como se esperasse... a vinda de Cristo.

2014-05-27



Chove em Paris. Refugiei-me num desses lugares que a vida guarda para nós, talvez para que não percamos a esperança. Estou sozinho. Penso inevitavelmente nos meus fantasmas: António Nobre, Mário de Sá-Carneiro... sobretudo no António, que viveu aqui tão perto e que chegou a Paris em 1890, no ano em que o Mário nasceu em Lisboa.
Junto à vidraça, olho Paris: a rua, as pessoas que passam apressadas, fugindo da chuva; os autocarros que descarregam asiáticos para os hotéis com a displicência de quem transporta mercadoria. Dentro do La Fourmi Ailée, em duas mesas fala-se francês, numa outra [ao fundo] fala-se inglês, atrás de mim, três espanhóis celebram com vinho e sobrepõem-se às outras conversas. Aqui, na minha mesa, penso [e escrevo] em português. É uma espécie de rumor, quase imperceptível, metáfora de uma idiossincrasia cultural. Aqui está um poeta português sozinho, cem anos depois d’A Confissão de Lúcio, inventando um outro longe, enquanto chove lá fora. É o spleen de Paris. Lembro-me das palavras de Fernando Pessoa: «Chove. Que fiz eu da vida?»
Em dezembro, estreei estes sapatos em Paris. Lembro-me das dores que então me causaram. Agora já não. Os meus pés adaptaram-se aos sapatos [ou foram os sapatos que se amoldaram aos meus pés... não importa]. Adaptamo-nos. O tempo passa. Gastamos os sapatos. Gastamos a vida.
[... no meu moleskine; Paris, 21 de maio de 2014]

2014-05-25



No meu moleskine [Paris, 23 de maio de 2014]:

[…] Descanso o corpo fatigado num banco do Cemitério de Montparnasse, [bem menos intenso do que o do Père-Lachaise]. Velhos conversam ao meu lado, talvez esperando a morte. Turistas em demanda de sepulturas de gente famosa. Eu fiz fundamentalmente o mesmo: Samuel Beckett, Eugène Ionesco, Marguerite Duras… Diante do túmulo de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, um coreano [sentado no banco mais próximo] perguntou-me por que paravam ali tantas pessoas. Expliquei-lhe [em inglês… como pude] quem foram Sartre e Beauvoir. Não me pareceu que o preocupasse a sua evidente ignorância em relação à filosofia ocidental [mas a verdade é que não sei nada sobre a história da filosofia coreana], porém estranhou o facto de estarem duas pessoas na mesma sepultura. Expliquei-lhe [com a autoridade que o meu inglês permite] que muitos daqueles jazigos são familiares, com vários corpos. Ele olhou-me com uma certa indiferença, antes de se despedir e misturar-se num funeral judaico.
Por muito que admire Beckett ou Duras, vim ao Cemitério de Montparnasse por causa de Baudelaire, companheiro de tantas horas de intimidade… no Porto ou em Paris, porque o spleen não escolhe cidades, apenas corações, almas em carne-viva. Não lhe disse nada. Sentei-me diante da sua sepultura e repeti para dentro [duas, três vezes…] o poema que escrevi no Jardin des Tuileries:

Aqui sentado, à sombra da chuva.
Caem palavras no chão, hoje sem Deus.
"Maison". "Sortie". "Marionnettes". E ainda:
"la mode à petits prix" e "service des objets
trouvés". Permaneço sentado. E os pássaros
famintos. E as palavras no chão, anjos
caídos. "Les mots". "Les poètes". "Les mots
à petit prix". "Service des poètes perdus".


Em Paris... recordo as palavras de António Nobre [numa carta de 1894]: «Amei Paris como nunca o amara. Vi arte nova, fiz anarquismo platónico [...]». Sim, vi arte nova, mas ainda não sei o que é anarquismo platónico.

La fête by Rodrigo Leão on Grooveshark

2014-05-21



J'ai besoin de repos mon cœur sur les rives de la Seine.