2014-04-16




Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo – fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
[Que ânsia distante perto chora?]
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!


Nevoeiro [Mensagem] | Fernando Pessoa

2014-04-10



"Passeamo-nos à sombra de árvores mitológicas
silenciosos e vagos pensando
como de lugar nenhum onde estivemos
alguma vez regressámos." [José Tolentino Mendonça]

2014-04-05



O gebo e a sombra entre a folhagem...

2014-04-03



A Mensagem foi publicada em outubro de 1934 [Lisboa, Parceria António Maria Pereira], um ano antes da morte de Fernando Pessoa [novembro de 1935]. Foi em 1991 que li a Mensagem pela primeira vez. Guardo comovidamente o exemplar que a minha Mãe comprou no fim-de-tarde de um sábado de inverno [no Continente de Matosinhos]. Pedi-lhe que mo comprasse depois de Fernando Pessoa me ter sido apresentado por Mário Viegas, na RTP [no programa Palavras Vivas, em 1991]. Trata-se de uma edição publicada pela Estante Editora, em junho de 1990, que custou uns 100$… e é provável que tenha sido paga com uma dessas notas com o retracto de Fernando Pessoa [que esteve em circulação entre 1987 e 1992].

Numa aula em que falávamos sobre poetas suicidas, um aluno questionou-me acerca do contexto que condiciona o suicídio de um poeta. Disse-lhe: o suicídio resulta de um novelo contextual extremamente complexo. Pensei: talvez seja apenas uma questão de encontrar a banda sonora certa.

Grow Till Tall by Jónsi on Grooveshark
Gabriel Pacheco



Tenho vivido cercado por poetas como Antero de Quental, António Nobre, Raul Brandão, Manuel Laranjeira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, José Bruges d'Oliveira, Guilherme de Faria... Não se trata apenas de personalidades narcísicas, misantrópicas, propensas ao egotismo e que tendem a deformar a realidade que habitam; mas de uma disforia que se vai instalando e que permite perguntar se não são as 'pessoas comuns' que habitam alienadamente uma realidade deformada e se não são poetas como estes que restituem à realidade a sua verdade íntima e profunda, mesmo que doa assumi-la, mesmo que assumi-la perturbe o sono tranquilo dos 'simples'. Ocorrem-me invariavelmente as palavras de Baudelaire: "Enfim! só! já nada se ouve senão o rolar de algumas carruagens retardadas e estafadas. Durante uma hora pertence-nos o silêncio, senão o descanso. Enfim! a tirania da face humana desapareceu, e não sofrerei senão por mim próprio. Enfim! é-me permitido repousar num banho de trevas! Antes de mais nada, duas voltas à fechadura. Parece-me que este girar de chave vai aumentar a minha solidão e reforçar as barricadas que me separam actualmente do mundo. […] Descontente com todos e descontente comigo, bem quisera resgatar-me e insuflar-me um pouco de orgulho no silêncio e na solidão da noite. Almas daqueles que amei, almas daqueles que cantei, confortai-me e amparai-me, tirai, tirai de junto de mim a mentira e os vapores infectos do mundo; e vós, Senhor meu Deus! concedei-me a graça de produzir alguns belos versos que me provem a mim mesmo que não sou o último dos homens, que não sou inferior àqueles que desprezo."

2014-03-31



Regressei ao CD do Jónsi [dos Sigur Rós]: GO [2010]... que o Luís Costa me ofereceu em setembro de 2012. É difícil explicar o modo como [quase imperceptivelmente...] acontece um milagre:

Hengilas by Jónsi on Grooveshark
Mário Paes da Cunha e Sá – Mário Saa – nasceu em 1893, nas Caldas da Rainha. Em 1895, a família regressa a Avis e o seu pai constrói [quatro anos depois] o Monte de Pero Viegas, onde Mário Saa residiu quase toda a vida. Em 1913, era aluno do Instituto Superior Técnico, em 1918 inscreveu-se no curso de Ciências Matemáticas e, em 1930, no curso de Medicina da Universidade de Lisboa.
A vida de Mário Saa dividiu-se entre a administração agrícola das suas propriedades e a investigação e produção literária. De acordo com o perfil dos intelectuais do seu tempo, interessou-se por temáticas distintas, publicando várias obras e numerosos artigos em periódicos. Dedicou-se à filosofia, à genealogia, à geografia antiga, à poesia, à problemática camoniana, às investigações arqueológicas, e mesmo à astrologia e à grafologia. A investigação que realizou sobre vias romanas resultou nos seis volumes de As Grandes Vias da Lusitânia, produto de mais de vinte anos de investigações e prospecções arqueológicas.
Mário Saa destacou-se, também, no panorama da poesia portuguesa das décadas de 20 e 30. Morreu no Ervedal [Avis], em 1971.



Fotografia inédita de Mário Saa, datada de 18 de julho de 1913.
Dedicatória para Aquilino Ribeiro no exemplar do Evangelho de S. Vito [1917], datada de 1 de fevereiro de 1924.

:: Entre a folhagem . . .

2014-03-29



O que eu daria por tomar um café com estes senhores...


Foi no dia 24 de novembro de 2005, em Barcelona [na casa da Miriam Reyes], que li pela primeira vez a poesia de José Antonio Ramos Sucre. Durante dias andei por Barcelona com o livro do poeta venezuelano, algures entre a consciência de que tocamos algo muito raro e a comoção de encontrarmos algo com que nos identificamos profundamente, como se nos descobríssemos na intimidade poética de alguém. E assim foi, do primeiro ao último poema.
Copiei para um papel [que me acompanha desde então] o último poema do livro: "Quando a morte acudir finalmente à minha súplica e os seus apelos me tornarem apto para a solitária viagem, eu invocarei um ser primaveril, com o fim de solicitar a assistência da harmonia da origem suprema, e uma paz infinita repousará no meu semblante. Minhas relíquias, ocultas no seio da escuridão e animadas de uma vida informe, responderão do seu desterro ao magnetismo de uma voz inquieta proferida num litoral desnudo. A recordação eloquente, a semelhança de uma lua exígua sobre o olhar de uma ave sonâmbula, perturbará o meu sonho até à hora de sumir-se com o meu nome, num esquecimento solene" [Omega].
Mais tarde, na minha dissertação de doutoramento em Literatura, evoquei Ramos Sucre, relacionando o seu imaginário poético com o do poeta neo-romântico português Guilherme de Faria, que se suicidou em 1929, um ano antes do suicídio de Ramos Sucre.
Em janeiro de 2013, na condição de poeta, fui convidado para o 10.º Festival Mundial de Poesía, na Venezuela, que decorreria entre 16 e 23 de junho. Aceitei o convite sem me lembrar que Ramos Sucre é um poeta venezuelano. Só em maio, quando me informaram que a minha participação no Festival Mundial de Poesía se dividiria entre Caracas e Cumaná, no Estado Sucre, me lembrei que o poeta José António Ramos Sucre nascera em Cumaná, no dia 9 de junho de 1890.
No dia 21 de junho de 2013 visitei a casa onde nasceu o poeta, um lugar onde se pressente a sua presença, entre retractos e manuscritos, memórias de família e a original tijoleira no corredor que, sob o alpendre, separa as divisões da casa e o jardim. Depois, fiz questão de levar flores ao túmulo do poeta, no cemitério antigo de Cumaná, atrás do Castelo de San Antonio. Não sabia que Ramos Sucre estava sepultado em Cumaná, na medida em que pôs termo à sua vida em Genebra [Suíça], no dia 13 de junho de 1930, no mesmo dia em que, em Lisboa, Fernando Pessoa celebrava o 42.º aniversário.
Em Cumaná prometi traduzir para português a poesia de Ramos Sucre. Em abril de 2014 começo a cumprir essa promessa.



2014-03-22



O respeito e a admiração que eu sinto por Manuel Laranjeira...

"Passei a tarde escrevendo: um artigo, cartas, notas, etc. Ao anoitecer fui panteistamente ver o mar. Um céu sombrio abraçava-se a um mar sombrio. E entrei a delirar tranquilamente sobre a escuridade das cousas, sobre o abismo da existência. Tudo é vão e em vão!"
[Diário Íntimo, Lisboa, Portugália, 1957, p. 37].
Ontem, no Dia da Poesia, com os poetas/amigos Valter Hugo Mãe e Jorge Melícias. Ficou impresso o alvídrio: quinze anos de poesia do Jorge Melícias num volume que é um documento fundamental da poesia portuguesa contemporânea. No meu exemplar ficou manuscrita uma dedicatória que lembra que há poucas realidades mais importantes do que a poesia... a amizade é uma delas.

2014-03-21

Lembrei-me hoje de Michael Jordan, um senhor que na década de 90 fez com que me apaixonasse por basquetebol. Não há palavras para descrever Michael Jordan, pelos títulos que venceu, pelos pontos que marcou [uma média de quase 30 pontos em mais de 900 partidas com a camisola n.º 23 dos Chicago Bulls]... pelo modo como o fez. Air Jordan vulgarizou expressões como "unbelievable", "amazing" ou "I've never seen this before".



Hoje fica impresso o novo livro de Jorge Melícias – alvídrio –, que reúne a sua poesia, com o inédito felonia e o meu posfácio [Onde a resiliência da pedra toca a exacção da fractura. Leituras da poesia de Jorge Melícias]. Continuo a actualizar o meu CV no Portal DeGóis. Comecei a escrever uma nova conferência – Poetas-filósofos ou filósofos-poetas? Disforia histórico-cultural no contexto português [entre Antero de Quental e Teixeira de Pascoaes] – para apresentar no dia 8 de maio, na Universidade Pontifícia de Salamanca [UPSA]. Entretanto veio a primavera e eu nem me apercebi que tivesse vindo.


Meu Farol by Mayra Andrade on Grooveshark

2014-03-18

Na Próxima quinta-feira. Fica o convite...

2014-03-14




O Papa Francisco pediu aos cardeais que evitem "intrigas, maledicência, fações, favoritismos, preferências". Com certeza não falou por falar. A linguagem dos mais altos responsáveis da Igreja deve ser a do Evangelho, disse Francisco. Na realidade, isso vale para qualquer cristão, independentemente do seu contexto e circunstâncias.
Temo, porém, que o Papa esteja a contribuir para a destruição de um forte argumento para acreditar na Igreja Católica: o da pecaminosidade dos seus membros.
Duas histórias vão contra Francisco. A primeira vem do tempo das convulsões napoleónicas: queixam-se ao cardeal Consalvi que "Napoleão quer destruir a Igreja". E o cardeal responde: "Isso nem sequer nós fomos capazes de fazer". A outra vem no «Decameron», de Boccaccio [século XIV]: o mercador Giannotto di Civigni, cristão, quer convencer o seu colega Abraão, judeu, a converter-se ao cristianismo. Depois de muita catequização, Abraão dispõe-se a aceitar a nova fé, mas precisa de ir a Roma observar "a vida e os costumes" do vigário de Deus na Terra e dos seus irmãos cardeais. Giannotto bem tenta convencê-lo a não sair de Paris, onde há muita gente sábia, mas Abraão não cede. E vai mesmo a Roma. Quando regressa, o judeu vai ter com Giannotto, que perdera toda a esperança de ver o seu amigo batizado. Abraão conta o que viu em Roma: "Nenhuma santidade, nenhuma devoção, nenhuma boa obra, nenhum exemplo de vida", e segue-se uma descrição dos pecados [aqui não há espaço!] para mostrar que Roma era uma "oficina de diabólicas operações mais do que divinas". Por fim, revela o seu veredicto: se aqueles que deveriam ser o "sustentáculo" da religião tudo fazem para a "reduzir a nada" e mesmo assim ela se dilata, "radiosa", é porque é a "verdadeira e mais santa" e "tem no Espírito Santo fundamento e sustentáculo". E o judeu recebe o batismo na Notre-Dame de Paris.
Claro que, na linha se Francisco, a nossa conclusão será outra. Se mesmo com pessoas de maus hábitos a Igreja é boa, como não seria se todos cultivassem as atitudes evangélicas.

[Adaptado do blog www.tribodejacob.blogspot.pt, do meu amigo Jorge Ferreira.]
Hugo Simberg



Esta nossa chamada vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó: do pó que fomos ao pó que havemos de ser. Uns fazem o círculo maior, outros menor, outros mais pequeno, outros mínimo. Mas, ou o caminho seja largo, ou breve, ou brevíssimo, como é círculo de pó a pó, sempre e em qualquer parte da vida somos pó. Quem vai circularmente de um ponto para o mesmo ponto, quanto mais se aparta dele tanto mais se chega para ele; e quem quanto mais se aparta mais se chega, não se aparta. O pó que foi nosso princípio, esse mesmo, e não outro, é o nosso fim, e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó, quanto mais parece que nos apartamos dele, tanto mais nos chegamos para ele; o passo que nos aparta, esse mesmo nos chega; o dia que faz a vida, esse mesmo a desfaz. E como esta roda que anda e desanda juntamente sempre nos vai moendo, sempre somos pó. | P. António Vieira
Hoje, no CineTeatro Constantino Nery [Matosinhos], substituo o P. José Tolentino Mendonça numa conversa sobre Cultura, Cidadania e Fé. Fica o convite:

O PensActos – Pessoa, Cidade e Liberdade – plataforma católica para o diálogo entre a Cultura e a Fé, vai promover no próximo dia 14 de Março, sexta-feira, pelas 21.30 horas, na sala principal do Cineteatro Constantino Nery, em parceria com a Câmara Municipal de Matosinhos, uma conferência/debate sobre a Cultura e os seus sentidos [significados, rumos e opiniões], subordinada ao tema Cultura, Cidadania e Fé. Este encontro contará com a presença e contributo de José Rui Teixeira [professor universitário e poeta, diretor da Cátedra «Poesia e Transcendência», da Universidade Católica], Manuel Sobrinho Simões [cientista, médico, professor, diretor do IPATIMUP] e Jaume Aymar [decano da faculdade de Filosofia da Universidade Ramón Llull, de Barcelona, diretor da rádio Estel e do jornal Catalunya Cristiana]. A moderação ficará a cargo de Fernando Rocha, vereador da Cultura da Câmara Municipal de Matosinhos.

2014-03-08

E assim terminou o 'Caminho da Chuva'...


Santiago de Compostela . 6 de março de 2014

2014-02-28



Entre 2002 e 2014, no contexto da Comunidade Educativa do Colégio Luso-Francês, percorremos 25 Caminhos rumo a Santiago, mais de três mil quilómetro, mais de 150 dias embrenhados na Galiza profunda, com mais de três mil alunos...
Tornámo-nos, ao longo destes anos, uma Comunidade de Peregrinos.
Entre os alunos que frequentaram o Ensino Secundário no Colégio Luso-Francês nos últimos 12 anos, cerca de 75% participaram nesta actividade. Destes, 80% percorreram mais de dois Caminhos, 40% mais de cinco e 25% regressaram na condição de alunos universitários.

2014-02-26



Há alguns anos que procuro elementos para uma contextualização histórico-literária da vida e obra de José Bruges d'Oliveira. Apesar das dificuldades, consegui finalmente descobrir um conjunto de documentos que me permitirão restituir este poeta à História da Literatura Portuguesa.
José Bruges d’Oliveira nasceu em Lisboa, no dia 6 de julho de 1899. Estudou Direito em Coimbra. Entre os livros que publicou, destacam-se: Da Terra e do Mar [1917], As minhas Cantigas [1918], Missal do Amor [1919, com o pseudónimo de José Lupi de Mena], Versos Fúteis [1920], Ophir [1921], Canções do Longe e do Perto [1922] e Baladas ao Vento [1929]. Em 1950 reúne em Memorial poemas escritos entre 1930 e 1945.
Poeta neo-romântico lusitanista [no contexto do saudosismo integralista], próximo de Afonso Lopes Vieira e aclamado por António Sardinha, José Bruges d’Oliveira colaborou com inúmeras revistas e jornais; viveu no Canadá, nos EUA e em França e, no dia 24 de abril de 1952, suicidou-se em Tânger, onde exercia funções consulares.


"A mim, lá no fim, além,
No tempo em que o meu cabelo
Era o recreio, o anelo
dos dedos da minha Mãe."

Memorial [Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1950, p. 11]. Fotografia: José Bruges d'Oliveira  — Tânger, 19 de abril de 1952 [cinco dias antes do suicídio].


Funeral Canticle by John Tavener on Grooveshark

2014-02-25




Às vezes estou com o diabo a sós para aprender os rudimentos de certas palavras, as líricas rodas dentadas da morte, os eixos mecânicos por dentro da dicção das suas arestas, a sinuosidade dos dilúvios, a displicência das catástrofes, a percepção áspera da minha mais lírica solidão, seus demorados subterrâneos. O diabo tem uma caixa de semantemas onde guarda o meu penúltimo poema.

2014-02-24





Ando ausente deste Equinócio de Outono...
Já escrevi que este blog não é um diário íntimo. No fundo é aquilo José Gomes Ferreira escreve nos seus Dias Comuns: ... "a continuação mole do diálogo informe do dia-a-dia comigo mesmo, o monólogo não artístico de remoer nuvens, às vezes com dentes de punhal, mas alheio à preocupação de pesquisar a verdade no segredo de mim guardado por um Dragão sujo."

Por estes dias li estas palavras de João Bigotte Chorão, sobre Joaquim Paço d'Arcos: "Espectador do mundo, viu muitas coisas e delas se maravilhou. Foi, num país de literatos maldizentes e ensimesmados, um ser convivente. Celebrou a família e deu provas de coragem na doença e na adversidade." Ficaria feliz se merecesse um dia que alguém escrevesse estas três frases sobre mim.

2014-02-15

O que é que Mário de Sá-Carneiro escreveria sobre o Dia dos Namorados? "Ele, ao amor, exigia que fosse amor. E o amor não existe. [...] E o amor… Ora, uns laivos de literatura barata e de espasmos húmidos com que excitámos a convenção e a ungimos de pacotilha…" [«Mistério», in Céu em Fogo, 2015]